
A coisa mais curiosa foi ver um grupo de cinco jovens garotas perto de seus dezesseis anos, sem sequer um adulto por perto, aguardando que o filme começasse. Qualquer fã de Bob Dylan sabe da sensação de inadequação e de estranhamento por ser praticamente a única pessoa, em qualquer roda de conversa, a admirar o compositor americano.
Aquelas garotas não se enquadravam no que se conhece como um grupo típico de dylanescos. Os outros na sala, casais de meia idade chegando em um silêncio quase de reverência, sim. Por isso, aguardei até que o filme começasse para ter certeza de que elas não tinham acessado a sala errada no cinema.
O filme era “Um Completo Desconhecido”, dirigido por James Mangold, que aborda os anos iniciais de Dylan na cidade de Nova Iorque, entre 1961 e 1965. Não há spoiler quando uma história é amplamente conhecida, então, sigamos apresentando os detalhes e alguns comentários a respeito do filme e do artista.
Antes mesmo de chegar às telas, a obra já revela dois atos de coragem. O do diretor e roteirista Mangold, por se desafiar a retratar um personagem de imagem fugidia e mutável, e o do próprio Dylan, que, segundo divulgou-se, autorizou a filmagem de sua história, repleta de posturas incômodas sob vários aspectos.
O que o filme vai mostrar é um artista em busca de reconhecimento e consciente de que fará tudo para que isso aconteça, deixando amores e amizades à medida que sua carreira o leva à frente. Quanto a isso, nenhuma surpresa, já que o próprio compositor disse em “It Ain’t Me, Baby”:
“Você diz que está procurando por alguém / que prometa nunca partir / Alguém que feche seus olhos por você / Alguém que feche o coração / Alguém que morreria por você e mais / Mas não sou eu, garota / Não, não, não, não sou eu a quem você procura”.
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No filme, as composições sobre o amor dividem espaço com as canções que falam sobre justiça social, encaradas àquela época como canções de protesto.
As participações de Dylan nos movimentos sociais daquele período aparecem muito pouco e seu ponto de vista sobre o que acontecia nos anos 1960 pode ser percebido apenas ao se acompanhar as letras das canções, enquanto ele as rascunha em seus cadernos ou as apresenta em shows.
E está exatamente no que ele escreve, com sua acidez e sua perspectiva inovadora sobre o ambiente político, aquilo que o diferenciava da cena folk do Greenwich Village, região de Nova Iorque onde esse tipo de música fervilhava no início daquela década.
Apesar de seu ídolo mais conhecido, Woody Guthrie, já disparar letras contundentes contra os fascistas de plantão, suas letras e as de seus contemporâneos são objetivas, diretas. É com Bob Dylan que as nuances aparecem.
Infelizmente, o filme não deixa evidentes suas referências literárias, que certamente o ajudaram a se transformar no autor que ele é. Não aparecem citações a Rimbaud, a T.S. Elliot e aos poetas beat.
O próprio Shakespeare, outra das inspirações do compositor, aparece em apenas uma fala, quando o jovem Dylan conversa com Suze Rotolo, no filme chamada de Sylvie (interpretada pela ótima Elle Fanning), em um balcão de bar.
Essas referências caminharam com ele durante toda a sua carreira e, não à toa, Dylan é o único compositor a ter recebido, além de suas premiações na área de música, o Prêmio Nobel de Literatura.
Se você quer entender o porquê de Bob Dylan ser reconhecido como um dos ícones da contracultura nos anos 1960, preste atenção às letras, como as de “The Times They Are A-Changing”, “Masters of War” e a clássica “Blowin’ in the Wind”. O filme não te dará outra chance além dessa.
Ao contrário do que aparece, ou deixa de aparecer em sua abordagem social, o filme mostra bastante o compositor em seus relacionamentos amorosos.
O jovem Dylan, magistralmente interpretado pelo ator Timothée Chalamet, envolve-se com mulheres que foram importantes em boa parte da sua vida.
É possível dizer que ele se envolveu com essas mulheres, mas parece difícil dizer que, naquele período, ele se entregou a todas elas.
Relaciona-se com Suze Rotolo e com Joan Baez, não necessariamente com uma após deixar a outra, e posteriormente com Sara Lownds, que surpreendentemente não é citada no filme, apesar de seu relacionamento com Dylan começar em 1964, época retratada na obra.
Dylan casou-se com Sara pouco tempo após conhecê-la. Talvez fossem camadas demais para abordar em um filme que busca sucesso comercial, ao estilo de Hollywood.
A impressão que dá é que o filme optou por adensar e comprimir a história de Dylan, como se fez na transição do vinil para o CD e dele para o MP3. Um som comprimido ocupa menos espaço, mas perde em complexidade.
Da mesma forma como transparece no seu relacionamento afetivo com suas namoradas, Dylan tinha posições fortes em relação à sua música.
Ele parecia saber exatamente o que queria dizer, e como gostaria de fazê-lo. Quando seus fãs esperavam dele a continuidade da música rural que se tocava no purista festival de Newport, ele entregou uma resposta barulhenta e incômoda, cantando ao som da guitarra: “Eu não vou mais trabalhar na fazenda de Maggie”.
Isso depois de ter sido lançado nesse mesmo festival por seu amigo Pete Seeger, personagem que merecia ter dado ao ator Edward Norton o Oscar de melhor ator coadjuvante.
Naquele momento, em 1965, Dylan já trabalhava nas canções daquele que seria um dos discos mais importantes da história do rock e que traz a música Like a Rolling Stone, de cujo refrão o diretor tirou o título do filme.
Em Newport, Seeger, temendo pela reação do público, desesperadamente tenta fazer o jovem cantor interpretar as músicas que a plateia esperava que ele cantasse. Se nem o amigo Seeger consegue convencê-lo, não seria uma audiência de pessoas acomodadas com a velha música folk que o faria.
Dylan estava decididamente em busca de sua verdade, se é que se pode dizer isso de um autor que, ao criar músicas para uma peça de teatro anos depois, escreveu:
“A verdade era a última coisa na minha mente e, mesmo que tal coisa existisse, eu não a queria em minha casa. Édipo foi em busca da verdade e, quando a encontrou, foi arruinado por ela”.
Essa convicção fez com que Dylan parecesse ter muitos rostos, um para cada pessoa que o conhecesse. Ele contribuiu para isso, escondendo sua história e confundindo a todos com situações que jamais aconteceram em sua vida.
Essas dissimulações são bem aproveitadas no filme e ficam curiosamente interessantes, com um misto de timidez e de arrogância, na interpretação de Timothée Chalamet, que dedicou mais de cinco anos à construção desse personagem.
Seu trabalho esteve à altura de um Oscar, que acabou não vindo. Pensando agora em Chalamet, é quase certo de que o jovem ator muito provavelmente tenha motivado a ida das cinco garotas ao cinema.
Teria sido um rosto bonito e famoso, mais do que a luta por direitos civis, o disparador de seu desejo de sair de casa para ver o filme?
Tem sido assim desde que o cinema é cinema, e posso dizer que Dylan, que sempre deu passos calculados para alcançar seus objetivos, aprovaria essa estratégia.
Aquelas garotas tiveram acesso a versos como “Venham mães e pais, de toda esta terra / E não critiquem o que não podem entender / Seus filhos e filhas estão além de seu comando / Sua antiga estrada está envelhecendo rapidamente / Por favor, saia do que é novo se você não puder estender a sua mão / Porque os tempos estão mudando”.
Aquelas garotas puderam ouvir isso. E ouvir isso, senhoras e senhores, ouvir isso quando jovem não é pouca coisa.
Onde assistir “Um Completo Desconhecido” na região:
O filme “Um Completo Desconhecido” atualmente está em cartaz nos seguintes cinemas do Vale do Paraíba:
- São José dos Campos
- Cinépolis (Shopping Jardim Oriente)
- Kinoplex Diamante (Vale Sul Shopping)
- Taubaté
- Cinemark (Via Vale Taubaté)
- Jacareí
- Cinemark (Jacareí Shopping)
Sobre o autor: Oswaldo Almeida Jr. é Especialista em Gestão e Políticas Culturais e graduado em História. Gerenciou o Sesc São José dos Campos de 2006 a 2018 e atualmente gerencia o Sesc Guarulhos.
No Sesc SP, coordenou projetos internacionais como a mostra Latinidades e a mostra artística do Sesc no Fórum Cultural Mundial. Foi Diretor Cultural da Fundação Cultural Cassiano Ricardo. É um dos fundadores do projeto Experiência Dylan, que envolve música, literatura e teatro.
Além de publicações em poesia, lançou recentemente o livro “Marcos Institucionais de Poder no Campo Visual da Cidade”.