Lembro-me de um dia quente no interior de São Paulo, visitando uma estação de tratamento onde minha empresa, a O2Eco Tecnologia Ambiental, implementava a tecnologia Salus, uma solução inovadora desenvolvida a partir da tese de doutorado, no ITA de São José dos Campos, do meu amigo e parceiro Matheus Muller.
Essa tecnologia reduz o desperdício de água e otimiza a destinação do lodo, tornando o processo mais eficiente e sustentável.

Enquanto observava a água cristalina ser reaproveitada no processo, um engenheiro me disse: “Água limpa não é só tecnologia, é governança.” Essa frase ressoou profundamente. Não basta termos soluções técnicas para tratar e reutilizar a água se não houver uma estrutura de governança que assegure sua gestão responsável e transparente.
A água, recurso essencial para a vida e o desenvolvimento econômico, enfrenta desafios sem precedentes em escala global.
A crescente escassez hídrica, intensificada pelas mudanças climáticas e práticas inadequadas de gestão, exige uma abordagem robusta de governança para assegurar a transparência e a segurança dos recursos hídricos.
A Importância da Governança e da Transparência
Uma governança eficaz dos recursos hídricos é fundamental para garantir o uso sustentável e equitativo da água.
A transparência na gestão desses recursos permite que informações cruciais sobre disponibilidade, qualidade e uso da água sejam acessíveis a todos os stakeholders, promovendo a confiança pública e facilitando a tomada de decisões informadas.
Leia mais: A evolução ESG em 2025: navegando por desafios e oportunidades
No Brasil, a Lei nº 15.012/2024 reforça essa necessidade ao obrigar a divulgação de dados sobre os níveis dos reservatórios de água destinados ao abastecimento público, fortalecendo a segurança hídrica nacional (aguaesaneamento.org.br).
A segurança hídrica está intrinsecamente ligada à sustentabilidade ambiental. Mudanças climáticas têm alterado o ciclo hidrológico, resultando em eventos extremos como secas prolongadas e inundações severas.
Essas alterações afetam diretamente a disponibilidade de água doce, comprometendo ecossistemas e a biodiversidade. Estudos indicam que, até 2040, a disponibilidade hídrica pode diminuir em mais de 40% em bacias hidrográficas das regiões Norte, Nordeste, Centro-Oeste e parte do Sudeste do Brasil.
Essa redução não apenas ameaça o abastecimento humano, mas também a saúde dos rios e a sobrevivência da biodiversidade.
Impactos Sociais e Migrações Hídricas
A escassez de água tem profundas implicações sociais. Comunidades enfrentam desafios no acesso a água potável e saneamento básico, condições essenciais para a saúde pública.
Além disso, a falta de recursos hídricos adequados pode levar ao deslocamento de populações, fenômeno conhecido como migração hídrica.
Relatórios indicam que, no Brasil, eventos climáticos extremos, como inundações e secas, resultaram em mais de 2 milhões de novos deslocamentos internos entre 2008 e 2019 (modefica.com.br). Essas migrações forçadas geram pressão adicional sobre as infraestruturas urbanas e recursos naturais das áreas receptoras.
Desafios Ambientais: Aquecimento Global e Poluição dos Rios
O aquecimento global contribui para o aumento das temperaturas médias, intensificando a evaporação e reduzindo a disponibilidade de água superficial.
Além disso, a poluição dos rios compromete a qualidade da água, tornando-a imprópria para consumo e prejudicando os ecossistemas aquáticos. A degradação dos corpos hídricos é agravada pelo despejo inadequado de resíduos industriais e domésticos, exigindo políticas rigorosas de controle e recuperação ambiental.
Segundo dados Agência Nacional de Águas de 2019 (ANA) existiam 83.000 quilômetros de rios poluídos no Brasil. Um número que infelizmente não deve estar melhor.
Embora os desafios sejam significativos, eles também apresentam oportunidades. Investimentos em infraestrutura hídrica não apenas mitigam os riscos associados à escassez de água, mas também impulsionam o desenvolvimento econômico.
Estudo do Boston Consulting Group (BCG) revela que tais investimentos podem gerar até US$ 7 trilhões em benefícios econômicos globais até 2030. No Brasil, o governo federal destinou cerca de R$ 1,6 bilhão em 2023 para ações de segurança hídrica, incluindo grandes obras de infraestrutura e sistemas de abastecimento de água (gov.br).
A crise hídrica global exige uma resposta integrada que combine governança transparente, investimentos estratégicos e políticas ambientais sustentáveis. Tecnologias existem, e são fundamentais, mas só fazem sentido dentro de um modelo de governança sólido e comprometido com a transparência.
Não podemos mais tratar a água como um recurso inesgotável. Somente através de uma gestão responsável e colaborativa dos recursos hídricos será possível assegurar a disponibilidade de água para as gerações presentes e futuras, promovendo o bem-estar social e a preservação ambiental.