A proposta de redução da carga horária de trabalho – o fim da escala 6×1 – de 44 para 36 horas semanais no Brasil tem gerado discussões nas redes e círculos sociais.
Apresentada pela deputada federal Erika Hilton, por meio do movimento “Vida Além do Trabalho”, a Proposta de Emenda à Constituição (PEC) propõe uma nova jornada baseada em um modelo 4×3 (onde o trabalhador teria quatro dias de trabalho e três dias de descanso), ao invés do 6×1 (em que a cada seis dias de trabalho há um de folga).
A parlamentar ainda defende que a mudança seja implementada sem redução salarial.

Vale destacar que no país, além do modelo 6×1 – que abrange entre 8,5% e 10% das empresas ou dos órgãos públicos nacionais -, outras escalas também são comuns como: 12×36, 5×2, 4×4, entre outros.
A reportagem do portal spriomais ouviu representantes de sindicatos e uma especialista em recursos humanos de São José dos Campos para entender os impactos dessa mudança.
Weller Gonçalves, presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São José dos Campos e Região, destaca que a redução da carga horária traria uma mudança significativa na vida dos trabalhadores.
“O impacto na qualidade de vida dos trabalhadores será muito significante, porque com a escala 6×1 o trabalhador tem apenas uma folga na semana. Com ao menos um dia a mais, o trabalhador tem mais tempo com a família, para praticar esportes ou se dedicar a uma leitura”, exemplifica.
Por outro lado, Sidiney Peruchi de Godoy, presidente da ACI (Associação Comercial e Industrial de São José dos Campos), diz que a jornada reduzida pode ser benéfica para a qualidade de vida dos trabalhadores, mas alerta para possíveis impactos econômicos.
“As empresas que hoje trabalham com uma determinada margem de receita e de retorno sob o capital aplicado vão ser atingidas de uma forma absurda, porque vão ter que dobrar a força de trabalho. E não só isso, mas com custos de alimentação, os custos de transporte, fundo de garantia, impostos”, explica Peruchi.”Isso vai inviabilizar os negócios e a tendência é fecharem. E fechando, o pessoal vai para rua”.
Weller também salienta que, mesmo que a proposta não chegue a ser implementada por completo, uma redução para 40 horas semanais já seria uma vitória.
“A PEC pede o fim da escala 6×1 e que tenha a jornada de 4×3. Mas, se sair a escala 5×2, já é uma vitória se o trabalhador conseguir ter dois dias de descanso”.
Ele também comenta que, na região, algumas empresas já implementaram a jornada reduzida e que o sistema tem funcionado: “Temos várias fábricas que, fruto de muita luta, adotaram a jornada de 40 horas semanais”.
Já Peruchi também critica a forma como a proposta está sendo debatida, chamando a medida de “cortina de fumaça” para desviar a atenção dos problemas econômicos do país. Ele acredita que a PEC, como está, seria inviável, principalmente porque contraria pontos da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), que define uma jornada máxima de 44 horas semanais.
Leia também: Procon tem vagas abertas para estágio de comunicação em São José dos Campos
Perspectiva de especialistas
Ana Carolina Guerra, especialista em recursos humanos, comenta sobre os desafios e oportunidades de uma mudança no modelo de jornada. Para ela, a transição para uma jornada reduzida pode trazer benefícios no aumento da motivação dos funcionários e na redução de absenteísmo, mas também exige cautela.
“Dependendo do setor, a redução da carga horária pode aumentar a necessidade de mão de obra adicional. Além disso, setores com alta demanda de atendimento, como varejo e serviços, podem sofrer mais dificuldades para atender os clientes com o mesmo nível de eficiência”, afirma.
Ela também destaca que, com a transição do modelo 6×1 pra um formato que reduza a carga horária, as empresas poderiam investir em flexibilidade, como revezamento de turnos e o uso de tecnologias para otimizar processos, sem comprometer a produtividade.
Ana também dá exemplos de países que adotaram a jornada de quatro dias por semana sem redução de salário e que tiveram bons resultados.
“A Islândia é um case de sucesso. Os resultados mostraram que a produtividade se manteve estável ou até aumentou em alguns casos, e os níveis de estresse e esgotamento dos trabalhadores diminuíram significativamente.
Porém, ela também aponta que para isso é importante se atentar em como a redução de carga horária é implementada, além de avaliar as particularidades culturais e do setor econômico envolvido.
“Na França, em alguns setores, a produtividade caiu e as empresas relataram dificuldades em manter os custos competitivos em relação a outros mercados internacionais”, finaliza.
*O Sinhores (Sindicato dos Hotéis, Restaurantes, Bares e Similares) também foi questionado sobre a mudança, mas a entidade optou por não se manifestar sobre o tema.
Acompanhe também: