Você está no supermercado e escolhe um produto com uma embalagem que promete ser “amiga do meio ambiente”. A propaganda é atraente: verde vibrante, frases como “100% sustentável” e ícones de folhas ao redor do rótulo. Você coloca o item no carrinho, sentindo-se parte da mudança positiva para o planeta. Dias depois, uma notícia revela que a marca faz parte de uma lista de empresas denunciadas por greenwashing – a prática de promover alegações ambientais enganosas para melhorar a imagem. A confiança é quebrada, e fica a dúvida: como separar ações reais de discursos vazios?

Nos últimos anos, o termo greenwashing tornou-se comum no mundo corporativo, referindo-se à prática de empresas que promovem alegações enganosas sobre seu impacto ambiental. No entanto, um novo relatório da empresa de ciência de dados ESG RepRisk traz um alívio: pela primeira vez em seis anos, o número de empresas associadas ao greenwashing caiu. Essa mudança sugere que a crescente pressão regulatória e de stakeholders está começando a surtir efeito.
Por outro lado, o relatório também revela que, embora o número total de casos tenha diminuído 12% até junho de 2024, as ocorrências mais graves aumentaram 30% no mesmo período. Isso mostra que, mesmo com menos casos, os incidentes de greenwashing tornaram-se mais intencionais e sistemáticos, com maior impacto ambiental e reputacional.
Regulamentação como Ferramenta de Transformação
A queda mais expressiva foi observada na União Europeia (redução de 20%), onde regulamentações como a “Green Claims Directive” e a “Empowering Consumers Directive” fortaleceram o combate ao greenwashing. Essas novas regras exigem maior precisão nas declarações ambientais e proíbem o uso de termos vagos e selos de sustentabilidade não reconhecidos.
Como explica Jessica Quiazon, líder de pesquisa ESG da RepRisk:
“A implementação de leis contra o greenwashing padroniza a comunicação das empresas sobre seus esforços ambientais e aumenta a responsabilidade. Com os impactos ambientais se tornando cada vez mais relevantes, as companhias enfrentam maior pressão para alinhar suas ações com suas declarações.”
Nos Estados Unidos, o cenário é mais complexo. Embora o número total de casos tenha caído pouco mais de 10%, houve um aumento em casos de alta gravidade. O contexto de politização do ESG no país fez com que empresas adotassem uma postura mais cautelosa, muitas vezes por pressão de investidores e políticos locais que questionam o uso de critérios ESG nos investimentos. Nunca a politização do ESG nos EUA ficou tão evidente, com republicanos criticando fortemente essas iniciativas, principalmente por questões econômicas e defesa dos combustíveis fósseis. Cerca de 59% dos republicanos veem as regulamentações ESG como uma ameaça, argumentando que podem prejudicar empregos e aumentar custos na indústria de petróleo e gás. A oposição republicana se reflete em ações como a tentativa de enfraquecer a Lei de Redução da Inflação (IRA), que trouxe mais de US$ 243 bilhões em investimentos em energia limpa desde sua aprovação em 2022. Eles alegam que incentivos climáticos prejudicam a economia e priorizam políticas progressistas à custa do cidadão comum. Além disso, procuradores-gerais republicanos têm pressionado fundos de investimento a reduzirem critérios ESG, reforçando uma abordagem mais individualista, focada em resultados financeiros de curto prazo, enquanto a sustentabilidade coletiva fica em segundo plano.
Setores em Destaque e Oportunidades
A pesquisa destacou que o setor de óleo e gás ainda lidera em número de casos de greenwashing, seguido pelos setores de alimentos e bebidas e serviços financeiros. No entanto, algumas indústrias registraram quedas expressivas nos casos, como o setor bancário (27%), seguido pelo varejo e bens de consumo (25%) e mineração (25%).
Philipp Aeby, CEO e cofundador da RepRisk, chama a atenção para a evolução constante do risco de greenwashing:
“Embora a legislação tenha avançado, o greenwashing continuará a se transformar, expondo empresas ao risco de danos reputacionais. Investidores e empresas precisam se apoiar em fontes externas para identificar alegações enganosas e evitar prejuízos financeiros.”
O relatório da RepRisk traz uma mensagem clara: as regulamentações e a pressão de stakeholders estão começando a moldar um comportamento mais responsável nas empresas. Ao mesmo tempo, as narrativas corporativas continuam a ser uma ferramenta poderosa que pode ser usada para o bem — ou para confundir. O desafio agora é garantir que as boas práticas de ESG sejam traduzidas em ações reais, não apenas em campanhas de marketing bem elaboradas.
No Brasil, o greenwashing é um problema crescente, com 98% dos investidores identificando relatórios de sustentabilidade como enganosos ou exagerados, segundo pesquisa da PwC (PricewaterhouseCoopers). A prática é combatida principalmente pelo Código de Defesa do Consumidor (CDC), que classifica publicidade enganosa como infração administrativa e penal. Embora o combate ao greenwashing ainda dependa de pressão social e ONGs, regulamentações mais claras, como a Resolução CVM nº 195/2023, indicam avanços na transparência e padronização das divulgações ambientais
Em um momento em que consumidores e investidores exigem mais transparência, combater o greenwashing é uma questão de sobrevivência para as empresas e o planeta. “A regra é clara”: não basta parecer sustentável; é preciso ser sustentável.
FONTE:ESG_TODAY
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