“Quase desisti duas vezes”, desabafou a jornalista Domitila Becker no Instagram sobre a amamentação de seu filho, Lorenzo, nascido há poucas semanas em Ilhabela. Ao amamentar, ela sentiu dores piores que de contração e acredita que essa experiência tem sido a coisa mais difícil que já fez, física e emocionalmente.
A jornalista compartilha pelas redes sociais como tem encarado a maternidade desde a gravidez, mas seu relato sobre a alimentação do filho recém-nascido chamou a atenção para uma rotina dolorosa que é silenciosamente a realidade de muitas mães.
O choro de fome de Lorenzo causava aflição. Domitila passou por uma inflamação e depois um fungo nos seios. Hoje recuperada, comemora cada vez que alimenta o filho sem dor. “Eu fiquei 25 dias chorando sem parar. Me ajudou muito escutar relatos de outras pessoas”, disse.
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Nos comentários do post, que passou das 30 mil visualizações, várias mães dividiram suas frustrações e relataram experiências difíceis amamentando os filhos, mas esse não é o comum. “Acho que a gente romantiza muito a amamentação. Isso a gente vê no Instagram como forma de incentivar as mães, mas falta falar sobre as dificuldades”, instiga a médica Amanda De Bona Silveira.
Amanda é ginecologista e obstreta em Caçapava, está acostumada a ver casos como o da jornalista, mas também viveu situação parecida e não imaginava que seria tão difícil. Ela teve de ir à uma consultora de amamentação e a um homeopata para amamentar a filha, que precisou fazer uma cirurgia simples para cortar o freio da língua para que pudesse mamar.
Esse procedimento se chama frenotomia. É bem rápido e uma solução para bebês que nascem com o freio lingual curto e por isso não conseguem fazer a sucção correta do leite do peito. A condição é verificada ainda na maternidade, logo nas primeiras horas de vida, com o “teste da linguinha”, uma obrigação prevista por lei no Brasil desde 2014.
“A cada uma, duas horas você sabe que vai doer”. Essa ansiedade que várias mães têm ao amamentar não precisa ser regra. Amanda explica que assistir vídeos com instruções básicas sobre o aleitamento é o primeiro passo para uma experiência mais tranquila, isso antes mesmo de ganhar o bebê. “Especialmente vídeos sobre pega”, ela enfatiza sempre para as pacientes.
A amamentação para os mamíferos na natureza é instintiva, mas com os seres humanos há uma mecânica por trás. “Não pode dar só o bico, mas colocar o mamilo inteiro na boca do bebê. O queixo tem que encostar no peito, a boquinha ficar invertida”, lista a obstetra.
Se esses passos forem seguidos desde o início da amamentação, o risco de lacerações e fissuras nas mamas já diminui consideravelmente, de acordo com Amanda. São instruções fundamentais para evitar o abandono precoce da amamentação exclusiva, período que corresponde aos primeiros seis meses de vida, quando a recomendação é de que o bebê receba somente o leite materno.
Por que o leite materno é tão rico para os recém-nascidos?
Dados do Ministério da Saúde de 2022 apontam que 46% dos recém-nascidos no Brasil são alimentados exclusivamente com o leite materno nos primeiros seis meses. O percentual quase alcança os 50% que a OMS estipulou como meta a ser atingida pelos países até 2025.
Essa preocupação enorme tem motivo. O leite materno não é qualquer leite e não se compra no mercado. Ele é também é mais barato e mais eficiente do que qualquer outro nas prateleiras. “O leite materno tem muitos anticorpos, então ele reduz tanto o número quanto a severidade de infecções que a criança pode ter”, expõe Amanda.
O Ministério da Saúde explica que o poder do leite materno vai além: protege as crianças de diarréias, alergias e as afasta das estatísticas da mortalidade infantil.
Mais do que isso, a amamentação também traz benefícios que são colhidos lá na frente. “Ela exige todo um funcionamento da musculatura orofacial, e a gente vai precisar dessa musculatura mais tarde para fala, mastigação. Então esse desenvolvimento é muito importante”, diz a médica.
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Tenho dores e dificuldade para amamentar, e agora?
Os problemas na amamentação não devem desencorajar as mães, afinal há soluções para diferentes casos. Para as mulheres que têm lesões ou sentem dores, a obstetra faz algumas recomendações:
- Passar pomadas de lanolina, que podem ser usadas como hidratantes e previnem possíveis rachaduras ou fissuras na pele das mamas;
- Ficar com a mama ao ar livre, sem atrito e contato com roupas ou outros materiais, ajuda a deixar a mama sempre seca e também auxilia na cicatrização”;
- Hidratar os mamilos com o próprio leite, que possui fatores antiflamatórios e pode ajudar a hidratar a região;
- Tomar banho de sol na mama, ação que ajuda a fortalecer a região da auréola;
- Não passar buxas ou esfregar as mamas;
- Não utilizar conchas para coleta de leite, pois elas deixam os mamilos molhados e podem aumentar o risco de candidíase nos mamilos;
- Em casos mais extremos, fazer laserterapia, procedimento que tem efeito analgésico, reduz as dores e ajuda na cicatrização.
Produção de leite e psicológico da mãe durante amamentação
Amanda define a amamentação como uma luta da mãe contra o mundo. A fase é sensível e pode trazer questionamentos desnecessários tanto internos quanto externos.
“Você não tem leite direito”, “seu leite é fraco” são tipos de comentários comuns que chegam aos ouvidos e com os quais nenhuma mãe merecia se deparar.
A dica da obstetra para esses momentos é definitiva: se blindar dos comentários externos. Amanda alerta que o estresse altera a produção hormonal e essa cadeia pode acabar afetando a produção de leite.
“A gente não tem leite fraco. A gente pode ter uma produção reduzida, mas tem várias maneiras de consertar isso. Tem até medicação. Pode tomar domperidona, plasil. Estimular a sucção em si, que vai aumentar os níveis de prolactina e ocitocina, que vai ajudar tanto na síntese quanto na ejeção de leite”, explica Amanda.
A força das mães pode parecer inesgotável, mas há casos em que as tentativas chegam ao fim e não é possível seguir com o aleitamento materno, ainda que seja o indicado. É ciência. Parar também passa pelo bem da mãe e do bebê.
“Não podemos transformar a amamentação nessa coisa idílica, como se fosse maravilhoso. Os primeiros 30, 40 dias são bem cruéis. Mas temos que ter a abertura para falar que tudo bem quando se tenta de tudo e não consegue amamentar. Você não vai ser menos mãe por ter dado uma mamadeira”, pontua a obstetra.