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    Cultura

    Folclore nordestino toma salão do Sesi SJC com xilogravuras e cordéis de J. Borges

    22 de maio de 2024Updated:12 de setembro de 2024Nenhum comentário5 Minutos de Leitura
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    O agreste pernambucano produziu há quase 90 anos um dos maiores artistas do país. José Francisco Borges, conhecido por J. Borges, é do interior do estado, da pequena cidade de Bezerros, e nasceu numa época em que a riqueza da literatura nordestina foi mais cantada do que lida. Hoje conhecido por suas obras talhadas em madeira, a xilogravura, teve sua arte surgindo dos cordéis.

    Até o dia 30 de setembro, o Sesi em São José dos Campos terá em exibição 44 das suas obras, oito delas inéditas até então (e suas respectivas matrizes). Textos e uma cinebiografia contam a história de Borges e sua influência na cultura popular brasileira e um espaço separado na mostra se dedica somente à experiência dos visitantes com a literatura de cordel.

    A exposição tem curadoria de Ângelo Filizola e pode ser visitada de quarta a domingo, das 10h às 20h, na avenida Cidade Jardim, n° 4389, no Bosque dos Eucaliptos. A visitação é gratuita e recebe gente de todas as idades. Para a criançada se divertir, tem ainda um quebra-cabeça inspirado no estilo do artista.

    “É uma exposição muito convidativa. Você pode vir, pode sentar e folhear um cordel, tocar nas matrizes de madeira que dão origens às gravuras, e pode também fazer uma oficina de gravura em EVA. A família inteira pode vir aqui curtir a exposição. É possível também fazer agendamentos de grupos escolares, é muito bacana”, disse Jean Fábio, mediador cultural do Sesi em São José.

    obras de j borges em exposição no sesi de são josé dos campos. foto foi tirda por trás de varais de cordéis e mpostra pinela amarelo com 5 xilogravuras do artista
    A exposição, chamada de “J. Borges – O Mestre da Xilogravura”, tem audiodescrição para as obras e traz também duas xilogravuras assinadas por Pablo e Bacaro Borges, filhos e aprendizes do pernambucano (Créditos: Gabriel Duarte/spriomais)

    Do cordel à xilogravura

    O analfabetismo no interior do Nordeste no começo do século 20 era comum. J. Borges fez parte dessa estatística. O pouquíssimo tempo que frequentou o colégio não foi suficiente para aprender a ler, coisa que só foi possível graças à cultura popular.

    “Ele foi para a escola durante dez meses só. Saiu tão analfabeto quanto entrou. Aprendeu a ler tentando ler cordel ou com alguém lendo cordel para ele. Essa é a história”, conta Fabio Sapede, também artista e colecionador das obras do pernambucano.

    A popularização dos livretos na época foi absurda, e como tudo o que faz sucesso, vende. A maioria de quem comprava os cordéis não sabia ler, mas a literatura acontecia pela oralidade. Os alfabetizados contavam as histórias. Fabio lembrou que durante uma pequena temporada, nas primeiras duas décadas do século 20, a quantidade de cordéis produzidos chegou a um terço da população brasileira na época, estimada em 30 milhões.

    Quando as letras fizeram sentido, Borges passou a escrever os próprios cordéis. Começou sua produção de fato por volta dos 20 anos. Sua estreia foi com o cordel “O Encontro de Dois Vaqueiros no Sertão de Petrolina”, ilustrado por Mestre Dila de Caruaru. O sucesso foi imediato, com mais de cinco mil exemplares vendidos em apenas dois meses.

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    Impulsionado pela boa estreia, Borges decidiu produzir suas próprias gravuras para seu segundo cordel, “O Verdadeiro Aviso de Frei Damião”. A primeira gravura esculpida em madeira para a capa foi uma igrejinha. As capas dos poemas eram importantes no crivo popular. Antes de comprar, o que se analisava não era o texto, mas sim a imagem que representava aquela narrativa. Borges era pobre e não tinha dinheiro para mandar fazer os clichês da impressão das capas dos cordéis. A madeira, porém, era barata.

    “Aí que ele começou a fazer a xilogravura. Então, por que a capa de um cordel é tão importante? Era o que fazia o cordel ser vendido. Ele começou a cortar e fazer ele mesmo as suas imagens xilogravadas. Isso foi uma constante. No interior do Nordeste, a grande maioria dos cordelistas faziam isso”, explicou Fabio.

    Borges desenha o folclore nordestino

    Borges deu vida a figuras inspiradas em histórias e lendas populares, mergulhadas no espírito do mestiço nordestino. Durante a vida, o pernambucano ilustrou mais de 200 cordéis e expandiu seu estilo, aumentando o tamanho das gravuras e desenvolvendo uma técnica própria de coloração. Entre todas as suas obras, sua xilogravura favorita é “A Chegada da Prostituta no Céu” (1976).

    “Ele diz que o que realmente faz sucesso no cordel é cobra, mulher e diabo. Então ele tem várias imagens com esses elementos no imaginário popular dele. Um dos exemplos é ‘A Chegada da Prostituta no Céu’. Eu aconselho todos a lerem. É muito engraçado, é muito humor. Uma disputa do céu e do inferno com relação a prostituta. Ali tem o capeta e tem a mulher. E em todos os lugares tem a cobra, maravilhosa”, brincou Fabio.

    Os visitantes da exposição no Sesi podem apreciar obras de diversas fases da história do artista, identificadas pelos temas:

    • Viagem a Trabalho e Negócios;
    • Serviços do Campo;
    • Plantio de Algodão;
    • Forró Nordestino;
    • Plantio de Cana;
    • Feira de Caruaru;
    • Carnaval em Pernambuco;
    • Festa dos Apaixonados.

    Borges participou de exposições em diversos países, como França, Alemanha, Suíça, Itália, Venezuela e Cuba. Também deu aulas no Brasil e no exterior e ilustrou livros em várias partes do mundo. Em 2006, foi destaque em uma reportagem do The New York Times e recebeu o título de Patrimônio Vivo de Pernambuco, assegurando apoio vitalício para preservar e transmitir sua arte.

    “É muito legal você pensar que não tem proporção, profunidade. Não tem absolutamente nada nessas obras, a não se um grande encantamento. A gente fica encantado essa coisa, gravada de maneira quase infantil, com cores vivas primárias, e é tão graciosa, tão bonita. Todo mundo tem que vir aqui para dar uma olhada”, disse Fabio, admirado com a exposição.

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