O agreste pernambucano produziu há quase 90 anos um dos maiores artistas do país. José Francisco Borges, conhecido por J. Borges, é do interior do estado, da pequena cidade de Bezerros, e nasceu numa época em que a riqueza da literatura nordestina foi mais cantada do que lida. Hoje conhecido por suas obras talhadas em madeira, a xilogravura, teve sua arte surgindo dos cordéis.
Até o dia 30 de setembro, o Sesi em São José dos Campos terá em exibição 44 das suas obras, oito delas inéditas até então (e suas respectivas matrizes). Textos e uma cinebiografia contam a história de Borges e sua influência na cultura popular brasileira e um espaço separado na mostra se dedica somente à experiência dos visitantes com a literatura de cordel.
A exposição tem curadoria de Ângelo Filizola e pode ser visitada de quarta a domingo, das 10h às 20h, na avenida Cidade Jardim, n° 4389, no Bosque dos Eucaliptos. A visitação é gratuita e recebe gente de todas as idades. Para a criançada se divertir, tem ainda um quebra-cabeça inspirado no estilo do artista.
“É uma exposição muito convidativa. Você pode vir, pode sentar e folhear um cordel, tocar nas matrizes de madeira que dão origens às gravuras, e pode também fazer uma oficina de gravura em EVA. A família inteira pode vir aqui curtir a exposição. É possível também fazer agendamentos de grupos escolares, é muito bacana”, disse Jean Fábio, mediador cultural do Sesi em São José.

Do cordel à xilogravura
O analfabetismo no interior do Nordeste no começo do século 20 era comum. J. Borges fez parte dessa estatística. O pouquíssimo tempo que frequentou o colégio não foi suficiente para aprender a ler, coisa que só foi possível graças à cultura popular.
“Ele foi para a escola durante dez meses só. Saiu tão analfabeto quanto entrou. Aprendeu a ler tentando ler cordel ou com alguém lendo cordel para ele. Essa é a história”, conta Fabio Sapede, também artista e colecionador das obras do pernambucano.
A popularização dos livretos na época foi absurda, e como tudo o que faz sucesso, vende. A maioria de quem comprava os cordéis não sabia ler, mas a literatura acontecia pela oralidade. Os alfabetizados contavam as histórias. Fabio lembrou que durante uma pequena temporada, nas primeiras duas décadas do século 20, a quantidade de cordéis produzidos chegou a um terço da população brasileira na época, estimada em 30 milhões.
Quando as letras fizeram sentido, Borges passou a escrever os próprios cordéis. Começou sua produção de fato por volta dos 20 anos. Sua estreia foi com o cordel “O Encontro de Dois Vaqueiros no Sertão de Petrolina”, ilustrado por Mestre Dila de Caruaru. O sucesso foi imediato, com mais de cinco mil exemplares vendidos em apenas dois meses.
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Impulsionado pela boa estreia, Borges decidiu produzir suas próprias gravuras para seu segundo cordel, “O Verdadeiro Aviso de Frei Damião”. A primeira gravura esculpida em madeira para a capa foi uma igrejinha. As capas dos poemas eram importantes no crivo popular. Antes de comprar, o que se analisava não era o texto, mas sim a imagem que representava aquela narrativa. Borges era pobre e não tinha dinheiro para mandar fazer os clichês da impressão das capas dos cordéis. A madeira, porém, era barata.
“Aí que ele começou a fazer a xilogravura. Então, por que a capa de um cordel é tão importante? Era o que fazia o cordel ser vendido. Ele começou a cortar e fazer ele mesmo as suas imagens xilogravadas. Isso foi uma constante. No interior do Nordeste, a grande maioria dos cordelistas faziam isso”, explicou Fabio.