Jessica Morais tem baixa visão e se sente mais segura andando por lugares desconhecidos na imensa capital paulista do que em São José dos Campos, onde mora. A falta de acessibilidade é muitas vezes estrutural, mas passa especialmente pela desinformação da população, em sua opinião.
“Se você me falar para ir a algum lugar que eu não conheça em São José, sozinha eu tenho medo de ir. Agora, se for fazer o mesmo em São Paulo, eu tô pegando um ônibus, descendo no Tietê e me virando”.
(Foto: Reprodução/Mart Production)
As cores das bengalas dos deficientes visuais não são por acaso, muito menos por estilo ou gosto pessoal. Elas servem para indicar às outras pessoas o nível de visão residual de quem as carrega. Cegos utilizam bengalas brancas. Surdocegos, as vermelhas. Jessica, por exemplo, usa a de cor verde.
“Acho muito necessário um trabalho de conscientização dos munícipes sem deficiência. Eu vou muito para São Paulo e é um outro nível de população. Aqui em São José as pessoas não sabem diferenciar as cores. As pessoas associam a questões de time de futebol. Ou assim, ‘se está de bengala é cego’. Não separa se é baixa visão, cego, surdocego. Não é nem tanto preconceito, é falta de informação”, diz.
Rampas nos ônibus, elevadores com botões em braile, intérpretes de Libras em eventos são recursos que promovem a acessibilidade para as pessoas com deficiência, mas representam apenas um farelo no universo da inclusão dos PCDs na sociedade.
Junto do marido, Luis Daniel, que é cadeirante, Jéssica atua oferecendo soluções para a acessibilidade que vão além desses equipamentos de “arquitetura”.
Os dois empreendem na LD Conteúdos, que trabalha com serviços de comunicação, assessoria e consultoria para que empresas e projetos tornem suas rotinas e iniciativas mais acessíveis. O casal se dedica especialmente à contornar os desafios das pessoas com deficiência para que sejam inseridas e se mantenham no mercado de trabalho.
Luis Daniel e Jessica Morais estão juntos há quase cinco anos (Foto: Reprodução/Instagram)
Os esforços muitas vezes são direcionados à questões simples, como chegar a tempo em uma entrevista de emprego ou a locomoção dentro de um escritório.
Trabalhos estruturais, de integração dos PCDs às firmas ou treinamentos sobre o capacitismo, também fazem parte do escopo de atividades e são fundamentais.
Eles ressaltam, porém, que as dificuldades das pessoas com deficiência começam a partir do momento em que saem de casa. A própria experiência de Jessica e Daniel com o transporte público já serve de exemplo.
“Tem gratuidade para as pessoas com deficiência. Os ônibus todos têm rampa ou são rebaixados. Mas o problema está em sair da minha casa e chegar no ponto de ônibus. Muitas vezes é preciso fazer rotas enormes pra você chegar num ponto com a cadeira”, relata Daniel.
“O Daniel passa por três pontos de ônibus até chegar em um que ele consiga acessar. Aí quando está chovendo não sai de casa“, completa a esposa.
Os bairros mais distantes do Centro são os locais em São José onde a acessibilidade é mais crítica, avalia o casal. A falta de padronização e reparos nas vias e calçadas comprometem o aproveitamento de tantos outros recursos úteis.
“A gente encontra muita coisa para ser feita, especialmente nas periferias. Cada morador constrói a rampa para subir com o carro de uma maneira. Sem padronizar, embora a lei municipal determine isso. Mas quando você olha de fora, São José tem a sua notoriedade no que já foi feito. O que está precisando hoje é ajustar. Tudo precisa de uma manutenção preventiva”, enfatiza Daniel.
Veja a entrevista com Jessica e Luis Daniel no Podcast Talk+
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