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    Cultura

    Bloquinho do INPE sai por São José nesta quarta exaltando Carnaval local; conheça sua história

    7 de fevereiro de 2024Updated:8 de fevereiro de 2024Nenhum comentário7 Minutos de Leitura
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    Eles começaram falando de dengue, já abordaram a tragédia de Mariana e agora voltam à folia em São José dos Campos nesta quarta-feira (7) com um enredo que homenageia os 50 anos do Carnaval de rua na cidade.

    O Bloco “Lá em Cuba, Em Cuba Lá”, conhecido popularmente como Bloco do INPE, vem para mais um ano com sua festa de outros carnavais e reflexões sociais.

    multidão de foliões reunidos no bloco em cuba lá, próximos ao parque vicentina aranha em são josé dos campos
    Foliões reunidos no bloquinho próximos ao Parque Vicentina Aranha (Foto: Reprodução/Instagram)

    O trajeto será o mesmo para quem já é de casa. Concentração na portaria do Parque Vicentina Aranha, às 18h, e desfile pela região central com destino à SAVEMA (Sociedade de Amigos Vila Ema e Jardim Maringá) por volta das 19h.

    Neste ano, a expectativa é por volta dos 1.500 foliões, entre eles muitas famílias e gente conhecida, mas com espaço para os novatos.

    “Eu diria para quem gosta, ou mesmo que não gosta de Carnaval, que vá acompanhar o Em Cuba Lá porque é um bloco gostoso. A música é ao vivo, a gente não tem trio elétrico. Temos os músicos da banda de Santana, que é tradicional da cidade há mais de 50 anos. Eles vão desfilando com a gente, tocando, e nós vamos cantando”, diz Dulce Rocha Faria, professora aposentada e membro do bloco desde que os integrantes podiam ser contados pelo nome.

    O bloquinho surgiu há 16 anos entre pesquisadores e alunos de pós-graduação e mestrado do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). A turma estudava sensoriamento remoto, uma área da ciência que muito resumidamente se dedica a observar a superfície da Terra à distância, com a ajuda de sensores colocados bem acima do solo.

    O professor Miguelzinho era bem próximo dos estudantes e observou neles uma paixão pela arte da qual compartilhava. Havia cientistas letristas, outros que compunham, arranjadores, instrumentistas, um grupo bom para uma farra que não cabia em aula.

    “Por que a gente não monta um bloco de Carnaval?”, sugeriu o professor, que no crachá carrega o nome de Antonio Miguel Vieira. A adesão foi unânime. Os interessados formaram o que até hoje é conhecida como a comprometida D.P.P (Diretoria Provisória Permanente).

    “Montamos a diretoria com esse grupo de alunos que ao qual se juntaram inicialmente uma série de pesquisadores e engenheiros ligados à antiga Divisão de Processamento de Imagens mais algumas pessoas e Nilton Blau, que é um músico tradicional do Vale”, conta Miguelzinho.

    O nome veio por acaso. Uma das professoras, Leila, comprou a ideia enquanto estava em uma missão técnico-científica em Cuba, mas queria já deixar reservado seu lugar no Carnaval. Em uma das reuniões para montagem do bloco a professora teve que participar remotamente. “Você tá onde?” perguntavam. “Lá em Cuba? Em Cuba lá?”, e da bobeira saiu o registro.

    Ainda que tenha uma formação original, o bloquinho é solto e tem vida própria. Em Cuba lá é uma organização de temporada, uma ideia comunitária, um sentimento perene que a cada Carnaval é retomado. A sensação é de que ele é de todo mundo e todo mundo o quer bem, pegando um gancho com os Tribalistas.

    Na primeira edição o grupo saiu com uma caminhonete Rural Willys – o carro de som -, um microfone, alguns engradados de cerveja e um estandarte improvisado que ainda é mantido porque em 2009 fez história. “Acho que nem tinha autorização da prefeitura nessa época”, relembra Dulce.

    bloco em cuba lá pelas ruas de são josé; mulher à frente carrega estandarte enfeitado
    O estandarte do Em Cuba Lá, o mesmo há 16 anos (Foto: Arquivo pessoal)

    A cada ano as coisas são de um jeito. A única condição definida para cada aparição do bloco foi a da lógica do samba: levar um tema relevante à sociedade para o desfile.

    “A gente tinha uma epidemia de dengue vindo e que tinha atingido São José também. Não pode ser um Carnaval sisudo. O modo e a voz da academia são muito diferentes da festa na rua e da voz do Carnaval. Mas não tem por que não levarmos temas relevantes para o Carnaval. E aí naquele ano era óbvio que o tema seria a dengue”, conta o professor do INPE.

    letra da marchinha de carnaval do primeiro em cuba lá, em 2009, que falava sobre a dengue na cidade
    Pimeira marchinha do bloquinho queria alertar a população para a dengue. “Não deixe água acumular, pra dengue não vingar”, diz trecho da canção (Foto: Divulgação/Em Cuba Lá)

    O enredo de 2024: um viva ao Carnaval de rua!

    A mensagem que o Em Cuba Lá pretende transmitir neste ano é proteger a cultura popular. Em homenagem aos 50 anos do Carnaval de rua em São José dos Campos, o grupo decidiu trazer em seu enredo (escute aqui) referências aos bloquinhos da cidade, dos mais velhos aos mais jovens.

    “Tem uma tentativa de retirar o Carnaval da rua e colocar na Via Oeste, mas não dá para concentrar a alegria. Há 50 anos o Carnaval nasceu na rua em São José, lá na Igreja da Matriz em 1974. Um bloco formado por um grupo de funcionários do CTA e alunos do ITA, chamado Bloco do Motor. E dali para a frente muitos outros surgiram”, explica Miguelzinho.

    Na marchinha há menções ao Filhos do Sol, fundado em 1975 em Santana; Pirô-Piraquara, criado pela Fundação Cultural Cassiano Ricardo em 1988; e ainda ao Galinha da Angola, bloco oficial do Parque Vicentina Aranha e que completa dez anos neste Carnaval.

    “A gente precisa reforçar, apoiar e fazer com que cresça mais. Num consenso, num pacto. Porque a rua é de todo mundo”, pensa.

    Como surpresa, desta vez a saída do Em Cuba Lá também vai reunir foliões desses outros bloquinhos de tradição. A festa promete juntar as diferentes cores e os personagens que sustentam a cultura carnavalesca local.

    “Eles estão convidados e vão estar conosco na partida. Eles vão levar suas bandeiras, seus estandartes, vamos chamar um por um e agradecer. E também vamos torcer para que haja uma compreensão de todo mundo. Da Prefeitura, da população. Mas há arranjos e consensos de maneira que a gente possa exercer na rua esse direito. Ruim é não deixar fazer”, destacou o carnavalesco.

    samba de carnaval de 2024 do bloco em cuba lá de são josé dos campos
    Marchinha de 2024 canta pela memória e o futuro dos bloquinhos na cidade (Foto: Divulgação/Em Cuba Lá)

    Para que as celebrações desta quarta (7) possam acontecer a D.P.P gastou por volta dos R$ 6 mil, valor parecido com o desembolsado em edições anteriores. Como não há patrocinadores, mas apoiadores e muitos apaixonados querendo contribuir, as contas sempre dão um jeito de serem pagas.

    O planejamento começa cerca de três meses antes do feriado e os gastos são planilhados: alegorias, a contratação indispensável dos músicos da Banda de Santana, bonecões para o desfile e a limpeza da SAVEMA, onde o bloco deságua. Lanchinhos, refrescos e fantasias são por conta de cada folião.

    trajeto do bloquinho em cuba lá explicado com mapa
    Trajeto do bloquinho explicado e com mapa (Foto: Divulgação/Em Cuba Lá)

    A parte boa da liberdade de caixa e de expressão para as fantasias é que os criativos brindam o povo com as boas ideias.

    “Você pode ir fantasiado do que quiser, então surgem sempre fantasias de críticas sociais. Me lembro de um ano em que o rapaz foi fantasiado de kit do material escolar. Disseram que teve corrupção na compra do kit então ele foi cheio de material pendurado”, conta Dulce.

    A professora lembra quando o caso da grávida de Taubaté estourou pelo país. Foi pioneira em imitar a falsa barriga no bloquinho. Usou apenas uma daquelas bolas imensas de criança brincar no parque, uma fita amarrada na cintura e um vestidão comprido por cima. “Foi um sucesso total, a gente vai muito pelo o que está acontecendo no momento”, explica para os que ainda têm dúvidas sobre o que vestir para cair na folia.

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