Eles começaram falando de dengue, já abordaram a tragédia de Mariana e agora voltam à folia em São José dos Campos nesta quarta-feira (7) com um enredo que homenageia os 50 anos do Carnaval de rua na cidade.
O Bloco “Lá em Cuba, Em Cuba Lá”, conhecido popularmente como Bloco do INPE, vem para mais um ano com sua festa de outros carnavais e reflexões sociais.

O trajeto será o mesmo para quem já é de casa. Concentração na portaria do Parque Vicentina Aranha, às 18h, e desfile pela região central com destino à SAVEMA (Sociedade de Amigos Vila Ema e Jardim Maringá) por volta das 19h.
Neste ano, a expectativa é por volta dos 1.500 foliões, entre eles muitas famílias e gente conhecida, mas com espaço para os novatos.
“Eu diria para quem gosta, ou mesmo que não gosta de Carnaval, que vá acompanhar o Em Cuba Lá porque é um bloco gostoso. A música é ao vivo, a gente não tem trio elétrico. Temos os músicos da banda de Santana, que é tradicional da cidade há mais de 50 anos. Eles vão desfilando com a gente, tocando, e nós vamos cantando”, diz Dulce Rocha Faria, professora aposentada e membro do bloco desde que os integrantes podiam ser contados pelo nome.
O bloquinho surgiu há 16 anos entre pesquisadores e alunos de pós-graduação e mestrado do INPE (Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais). A turma estudava sensoriamento remoto, uma área da ciência que muito resumidamente se dedica a observar a superfície da Terra à distância, com a ajuda de sensores colocados bem acima do solo.
O professor Miguelzinho era bem próximo dos estudantes e observou neles uma paixão pela arte da qual compartilhava. Havia cientistas letristas, outros que compunham, arranjadores, instrumentistas, um grupo bom para uma farra que não cabia em aula.
“Por que a gente não monta um bloco de Carnaval?”, sugeriu o professor, que no crachá carrega o nome de Antonio Miguel Vieira. A adesão foi unânime. Os interessados formaram o que até hoje é conhecida como a comprometida D.P.P (Diretoria Provisória Permanente).
“Montamos a diretoria com esse grupo de alunos que ao qual se juntaram inicialmente uma série de pesquisadores e engenheiros ligados à antiga Divisão de Processamento de Imagens mais algumas pessoas e Nilton Blau, que é um músico tradicional do Vale”, conta Miguelzinho.
O nome veio por acaso. Uma das professoras, Leila, comprou a ideia enquanto estava em uma missão técnico-científica em Cuba, mas queria já deixar reservado seu lugar no Carnaval. Em uma das reuniões para montagem do bloco a professora teve que participar remotamente. “Você tá onde?” perguntavam. “Lá em Cuba? Em Cuba lá?”, e da bobeira saiu o registro.
Ainda que tenha uma formação original, o bloquinho é solto e tem vida própria. Em Cuba lá é uma organização de temporada, uma ideia comunitária, um sentimento perene que a cada Carnaval é retomado. A sensação é de que ele é de todo mundo e todo mundo o quer bem, pegando um gancho com os Tribalistas.
Na primeira edição o grupo saiu com uma caminhonete Rural Willys – o carro de som -, um microfone, alguns engradados de cerveja e um estandarte improvisado que ainda é mantido porque em 2009 fez história. “Acho que nem tinha autorização da prefeitura nessa época”, relembra Dulce.

A cada ano as coisas são de um jeito. A única condição definida para cada aparição do bloco foi a da lógica do samba: levar um tema relevante à sociedade para o desfile.
“A gente tinha uma epidemia de dengue vindo e que tinha atingido São José também. Não pode ser um Carnaval sisudo. O modo e a voz da academia são muito diferentes da festa na rua e da voz do Carnaval. Mas não tem por que não levarmos temas relevantes para o Carnaval. E aí naquele ano era óbvio que o tema seria a dengue”, conta o professor do INPE.

O enredo de 2024: um viva ao Carnaval de rua!
A mensagem que o Em Cuba Lá pretende transmitir neste ano é proteger a cultura popular. Em homenagem aos 50 anos do Carnaval de rua em São José dos Campos, o grupo decidiu trazer em seu enredo (escute aqui) referências aos bloquinhos da cidade, dos mais velhos aos mais jovens.
“Tem uma tentativa de retirar o Carnaval da rua e colocar na Via Oeste, mas não dá para concentrar a alegria. Há 50 anos o Carnaval nasceu na rua em São José, lá na Igreja da Matriz em 1974. Um bloco formado por um grupo de funcionários do CTA e alunos do ITA, chamado Bloco do Motor. E dali para a frente muitos outros surgiram”, explica Miguelzinho.
Na marchinha há menções ao Filhos do Sol, fundado em 1975 em Santana; Pirô-Piraquara, criado pela Fundação Cultural Cassiano Ricardo em 1988; e ainda ao Galinha da Angola, bloco oficial do Parque Vicentina Aranha e que completa dez anos neste Carnaval.
“A gente precisa reforçar, apoiar e fazer com que cresça mais. Num consenso, num pacto. Porque a rua é de todo mundo”, pensa.
Como surpresa, desta vez a saída do Em Cuba Lá também vai reunir foliões desses outros bloquinhos de tradição. A festa promete juntar as diferentes cores e os personagens que sustentam a cultura carnavalesca local.
“Eles estão convidados e vão estar conosco na partida. Eles vão levar suas bandeiras, seus estandartes, vamos chamar um por um e agradecer. E também vamos torcer para que haja uma compreensão de todo mundo. Da Prefeitura, da população. Mas há arranjos e consensos de maneira que a gente possa exercer na rua esse direito. Ruim é não deixar fazer”, destacou o carnavalesco.

Para que as celebrações desta quarta (7) possam acontecer a D.P.P gastou por volta dos R$ 6 mil, valor parecido com o desembolsado em edições anteriores. Como não há patrocinadores, mas apoiadores e muitos apaixonados querendo contribuir, as contas sempre dão um jeito de serem pagas.
O planejamento começa cerca de três meses antes do feriado e os gastos são planilhados: alegorias, a contratação indispensável dos músicos da Banda de Santana, bonecões para o desfile e a limpeza da SAVEMA, onde o bloco deságua. Lanchinhos, refrescos e fantasias são por conta de cada folião.

A parte boa da liberdade de caixa e de expressão para as fantasias é que os criativos brindam o povo com as boas ideias.
“Você pode ir fantasiado do que quiser, então surgem sempre fantasias de críticas sociais. Me lembro de um ano em que o rapaz foi fantasiado de kit do material escolar. Disseram que teve corrupção na compra do kit então ele foi cheio de material pendurado”, conta Dulce.
A professora lembra quando o caso da grávida de Taubaté estourou pelo país. Foi pioneira em imitar a falsa barriga no bloquinho. Usou apenas uma daquelas bolas imensas de criança brincar no parque, uma fita amarrada na cintura e um vestidão comprido por cima. “Foi um sucesso total, a gente vai muito pelo o que está acontecendo no momento”, explica para os que ainda têm dúvidas sobre o que vestir para cair na folia.
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