O Vale do Paraíba desempenhou um papel fundamental para a Independência do Brasil, dada a rota seguida por Dom Pedro I até proclamar a emancipação de Portugal em 7 de setembro de 1822.
Se a rota terrestre não fosse importante, o então príncipe regente poderia ter feito a viagem de navio entre o Rio de Janeiro e Santos, é o que afirma o professor e historiador Maurício Chiga.

“A passagem de Dom Pedro pelo Vale pode ser vista como uma busca por recursos políticos e econômicos em uma das regiões mais ricas e prósperas. Isto coincide com o início do ciclo do café no Vale Paulista, culminando em seu auge por volta de 1850, com uma expansão de Bananal para Cruzeiro e, posteriormente, para Taubaté e São Paulo”, conta.
A trajetória de Dom Pedro I pelo Vale durante o processo de Independência do Brasil evidencia a relevância da região. A comitiva do príncipe passou pelos seguintes locais:
- Bom Jesus do Bananal
- São João do Barreiro
- São Miguel das Areias
- Silveiras
- Porto de Santo Antônio da Cachoeira
- Lorena (onde por decreto dissolveu o governo provisório, assumindo efetivamente o governo da Província de São Paulo)
- Guaratinguetá
- Pindamonhangaba
- Taubaté (São Francisco das Chagas)
- Nossa Senhora da Conceição do Rio Paraíba de Jacareí
- São José do Paraíba (hoje São José dos Campos)
Ao longo da viagem, diversas pessoas foram aderindo ao movimento do príncipe e conforme explica o historiador, homens influentes da região, especialmente de Taubaté, estiveram presentes na comitiva que acompanhou o príncipe Dom Pedro em sua jornada, deixando registros e evidências que ecoam até os dias de hoje.
O Vale do Paraíba estava localizado em uma região geograficamente estratégica, pois ligava a cidade do Rio de Janeiro, que era a capital do Brasil na época, com Minas Gerais, uma província importante e rica.
Além disso, a região também era conhecida por suas propriedades rurais produtoras de café e outras culturas agrícolas, que eram de fazendeiros influentes e abastados, muitos dos quais eram favoráveis à independência, já que viam a possibilidade de ampliar seus negócios sem a interferência das autoridades portuguesas.
Expedição em 2023
A expedição foi replicada por uma comitiva coordenada pela Federação das Câmaras Portuguesas de Comércio no Brasil, que teve início no último dia 29 no Palácio da Liberdade, em Belo Horizonte (MG) e se encerrou nesta quinta (7), no Museu do Ipiranga, em São Paulo.
O cortejo também passou pelas cidades de Bananal, Fazenda Pau d’Alho, em São José do Barreiro, Areias, Silveiras, Cachoeira Paulista, Lorena, Guaratinguetá, Aparecida, Pindamonhangaba, Taubaté, Jacareí, Mogi das Cruzes, Santos (e São Paulo em São Paulo).
Refazer os caminhos percorridos por Dom Pedro é uma forma de celebrar os 200 anos de Independência, completados no ano passado.
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Contestação
O professor também questiona quanto à autenticidade do icônico quadro de Pedro Américo de 1888, que retrata o episódio no Ipiranga e também sobre os processos que levaram à independência do país, mas explica que as perguntas devem ser feitas com cautela.
“A história oficial até pode e deve ser contestada, mas deve existir um trabalho historiográfico para tal aí sim com novas evidências documentais”, diz Chiga.
Também existe a questão da figura feminina de Dona Leopoldina que no contexto não costuma ser abordada ou ao menos não está no imaginário popular, como o grito de “Independência ou morte”.
“Acontece que no Ipiranga, dia 7 de setembro de 1822, o príncipe recebeu correspondência real que continha carta de dona Leopoldina que ficou na corte no Rio de Janeiro como princesa regente e assinou a declaração de Independência do reino de Portugal. Então, Dom Pedro fez a proclamação que já havia sido assinada pela princesa antes”.

A polêmica envolvendo o quadro de Pedro Américo pode ser compreendida devido ao contexto da época. A obra foi encomendada pelo próprio império em um momento de desgaste político e visava criar um mito em torno de Dom Pedro I.
Por isso existe a importância de um olhar crítico sobre os acontecimentos, já que a obra foi concluída muitos anos após a proclamação da independência.
Segundo Maurício, os trabalhos do professor José Luiz Pasin, como o livro “A Jornada da Independência” (Vale Livros, 2002), oferecem uma visão valiosa quanto à historiografia da Independência.
Contudo, uma abordagem crítica é necessária para explorar o significado da independência para diferentes grupos e a questão da inclusão dos povos originários e africanos.
“Numa história mais crítica se discute até mesmo independência de quem e para quem, como no caso do viés decolonial”, exemplifica.
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