Um brasileiro na Noruega fazendo música de todos os estilos com músicos malawianos. Foi nesse contexto que a semente para o livro “Ritmos africanos do Malawi”, de autoria do músico joseense Guilherme dos Santos, foi plantada.
Lançado em maio deste ano, o livro aborda especialmente quatro gêneros musicais do país localizado no sudeste do continente africano: Gwanyasa, Ingoma, Manganje e Vimbuza. Ao mesmo tempo, vai muito além desses gêneros e da própria música.
É o registro por escrito das características culturais e nuances sociais de um povo apoiado na oralidade. No Malawi, o canto e a tradição são transmitidos pelo mesmo caminho.

Cria do Projeto Guri, onde foi de aluno até supervisor educacional, seu cargo atual, Guilherme decidiu atravessar o atlântico e enfrentar o frio norueguês em 2017 para um programa de intercâmbio musical, o MOVE (Musicians Organizer Volunteer Exchange).
Estudou por lá o rock, jazz e outros gêneros difundidos mundo afora ao lado de músicos moçambicanos, noruegueses e malawianos – com quem morou e criou uma conexão especial.
Ficou cerca de seis meses na Europa e, quando voltou, instigou a diretoria regional do Projeto Guri a não apenas enviar alunos, mas também trazer intercambistas dos outros três países do programa para São José.
Foi questão de tempo para que a sugestão fosse aceita. No mesmo ano, a unidade passou a receber músicos estrangeiros. Entre 2017 e 2020, três malawianos estiveram por aqui estudando e praticando música e Guilherme foi uma espécie de guia para eles.
“Na maioria das vezes a comunicação era em inglês, mas eles se adaptavam bem, porque o clima é tropical, é bem parecido. Eu era muitas vezes o representante que estava ali com o grupo auxiliando, mas depois dando uma certa autonomia para eles seguirem”.
A força da oralidade e a importância de documentar
No Malawi, poucos são os registros. Isso porque lá o sistema de educação possui grande tradição oral, onde todo conhecimento e sabedoria é transmitido de uma geração a outra.
Encantado com as diferenças culturais dos colegas mas também identificado com o que pôde observar deles, Guilherme aproveitou o contato do intercâmbio para documentar traços da música malawiana.
O livro então surgiu com base nos relatos dos intercambistas do Malawi e ganhou reforço – e validação – com uma extensa, porém nem sempre acessível, pesquisa bibliográfica.
“Muitas das vezes para você ter acesso a essas informações, ou você convive com essas pessoas do Malawi ou você tem que estar diretamente lá vivendo com eles. Eu meio que me senti nessa missão de contar um pouco a história dessas pessoas, dessas manifestações”, contou em entrevista ao Podcast Talk+.
Malawi: novo, pequeno e diverso
Pela idade, o Malawi sequer poderia ser considerado idoso no Brasil. Há apenas 59 anos, em 1964, que conquistou sua independência e deixou de ser colônia da Inglaterra.
Apesar de um jovem país, como território o Malawi abriga uma cultura antiga e muito diversa num espaço menor do que o estado do Amapá.
São 17 grupos étnicos, como Chewa, Yao e Tumbuka, espalhados por cerca de 118 mil km². Eles são alguns dos vários que fazem parte dos povos bantos, presentes em diversos países espalhados pela África Subsaariana.
Pelo livro de Guilherme, a gente consegue entender o alcance e bagagem dos quatro principais ritmos do país (Gwanyasa, Ingoma, Manganje e Vimbuza).
Eles flutuam entre todas essas camadas, línguas e identidades desde o entretenimento até a religiosidade.

Gwanyasa
É uma dança originária dos povos Chewa. É uma dança masculina em que os homens dançam totalmente sincronizados em movimentos ágeis e rápidos.
“Essa dança é usada hoje como entretenimento em competições escolares. O governo ajuda e incentiva para que essa dança seja praticada como competição, é um entretenimento”, explicou o músico.
Ingoma
O Ingoma é originamente uma dança de guerra vinda dos povos Ngoni, que migraram do sul da África para o Malawi no século 19.
“É uma dança que prepara os guerreiros para a batalha. É um ritual de vigor, de preparo, e apesar de não termos mais guerras hoje, no passado ela foi usada com essa função”.
Manganje
Conhecido por ser um ritual de passagem feito com os meninos dos povos Yao, o Manganje representa uma transição da infância para a fase adulta.
Esses meninos passam um período isolados com seus mestres, que são homens mais velhos que vão os ensinar códigos éticos e como conviver em sociedade.
Para “provar” que chegaram à maturidade, os garotos passam por um processo de circuncisão, que depois é celebrado com uma festa.
“Após todo esse ritual as pessoas se reúnem, fazem essa festa e praticam o Manganje. Esses meninos às vezes recebem oferendas, dinheiro, premiações, e tá envolvida ali toda a celebração por terem feito essa passagem”.
Vimbuza
O Vimbuza é uma dança de cura praticada pelos povos Tumbuka contra possessões espirituais para pessoas que sofrem de perturbações mentais.
Essa dança é feita com a presença de um curandeiro e uma marca dela são os batuques de tambores. De acordo com Guilherme, o som desses tambores para os malawianos representam uma espécie de alívio para as dores dos pacientes.
Como comprar o livro
Hoje a divulgação e venda do livro é feita especialmente com o próprio autor. Os interessados podem entrar em contato pelo perfil de Guilherme no Instagram.
Assista a entrevista com Guilherme dos Santos
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