Contrariando especulações e equívocos difundidos após a pandemia, estudos científicos têm mostrado que o uso de telas não está associado ao desenvolvimento do autismo. Essa conclusão foi um dos temas abordados pelo especialista Lucelmo Lacerda, de São José dos Campos, durante entrevista ao Portal SP RIO+ nesta quarta-feira (24).
Segundo ele, o uso excessivo de smartphones, tablets e computadores podem, sim, ser prejudiciais à saúde. Contudo, não influencia o desenvolvimento do TEA (Transtorno do Espectro Autista). A confusão é decorrente de uma tradução errônea de um termo em inglês.
A entrevista completa está disponível no Spotify, no YouTube e ao final desta matéria.

“Surgiu uma história na internet do tal autismo virtual, que seria causado por telas. Isso não existe. Provavelmente é decorrente da leitura de alguns artigos que utilizam a expressão chamada “autismlike”, que significa alguma coisa que se parece o autismo, mas não é. Você tem indivíduos que têm um prejuízo social e expressivo que estão em tela e que, do ponto de vista estético, podem ter algumas similaridades com o autismo. Mas não têm nada a ver com o autismo”, explicou o especialista.
Apesar de não causarem o espectro, as telas causas outros problemas de saúde. O especialista Lucelmo Lacerda deu alguns exemplos, como desenvolvimento intelectual e dificuldades de interação social.
“Durante a pandemia, como os indivíduos ficaram muito expostos às telas, uma geração de crianças tiveram seu desenvolvimento comprometido de maneira que, eventualmente, profissionais que não são tão experientes na área causaram essa confusão”, disse durante a entrevista.
O especialista ainda citou outro um problema decorrente da pandemia: as infecções causadas pela Covid-19. Todavia, ele explicou que apesar de infecções serem um dos fatores que contribuem com o autismo, o aumento dos diagnósticos positivos do espectro não está necessariamente relacionado ao coronavírus.
“Durante a pandemia, como muitas mulheres grávidas tiveram infecções, que é um dos fatores ambientais que contribuem com a existência do autismo, pode ser que nós tenhamos uma quantidade um pouco maior de pessoas com autismo. Talvez a gente tenha uma interferência em termos de números no futuro”, enfatizou.
Ainda sobre a questão das telas, Lucelmo Lacerda explicou porque algumas pessoas diagnosticadas com autismo demonstram interesse interesse pelos aparelhos eletrônicos, sobretudo o celular.
“Muitas pessoas com autismo, por não interagirem, podem ter uma relação extraordinária com o celular, porque é uma forma de entretenimento fácil, com muita estimulação. Isso vale para todas as crianças. Só que para elas, isso compete com a interação social. Em crianças com autismo, isso muitas vezes não compete”, explicou.
A causa exata do autismo ainda não é totalmente compreendida. No entanto, existem evidências científicas que apontam para uma combinação de fatores que podem influenciar, como genéticos, ambientais, anormalidades cerebrais e fatores pré-natais e perinatais.

Sobre Lucelmo Lacerda
Lucelmo Lacerda é professor universitário, doutor em educação, historiador, psicopedagogo e pesquisador na área de análise do comportamento.
Mora em São José dos Campos desde o início da pandemia de coronavírus.
Descobriu ser autista depois que o filho foi diagnosticado com a condição. Tornou-se uma autoridade na área e compartilha suas experiências e conhecimentos na internet. Em seu Instagram, conta com mais de 115 mil seguidores. No YouTube, soma 225 mil inscritos.
É autor de diversos livros sobre o assunto. Seu último lançamento, de 2023, intitulado ‘Crítica à Pseudociência em Educação Especial’, aborda a problemática de educar crianças e adolescentes com necessidades especiais de aprendizagem apenas em salas de aulas regulares.
Confira a entrevista na íntegra:
Acompanhe também: