Uma jovem de 23 anos, moradora do bairro Parque Nova Esperança, na região leste de São José dos Campos, publicou um vídeo em suas redes sociais acusando o Hospital Municipal, na Vila Industrial, de violência obstétrica.
Até o início desta quarta-feira (15), a publicação contava com mais de 700 curtidas e 400 comentários, além de centenas de compartilhamentos.
De acordo com as informações publicadas na segunda-feira (13), médicos do hospital não conseguiram identificar a causa de suas cólicas intensas e dores vaginais. Eles alegavam que elas eram normais, resultantes de um pós parto. Após diversas idas ao local, foi descoberto um cisto uretal. Entretanto, como não havia urologista disponível para atendê-la com urgência, o cisto acabou estourando em sua casa.
Após consultar-se em um hospital particular, Isabelle Mioni descobriu que o seu quadro clínico havia evoluído para outros problemas mais graves. Laudos médicos apontam que o cisto, que deveria ter sido drenado, acabou se tornando uma carúncula.

Segundo a jovem, as dores continuam atualmente, mesmo com a remoção da carúncula em um hospital particular. O SUS, por sua vez, segue sem saber como proceder com o tratamento. Nas redes sociais, Isabelle afirma que sequer obtém retorno da Prefeitura.
“Expor minha vida aqui na internet foi a última tentativa de alguma solução. Eu não sei mais o que fazer, o que pesquisar, em que médico ir. A [Central] 156 não responde, eu chego nos médicos e eles não sabem o que é”, lamentou a jovem nas redes sociais.
Em contato com o Portal SP RIO+, a joseense disse que não registrou boletim de ocorrência na Polícia.
O que diz a Prefeitura
O Portal SP RIO+ entrou em contato com a Secretaria de Saúde de São José dos Campos e apresentou o caso à pasta.
Em nota oficial, a Prefeitura disse que aguarda o SUS agendar o procedimento cirúrgico.
“A Prefeitura de São José informa que a paciente foi atendida no dia 09 deste mês (fevereiro) pela UBS Resolve do Parque Novo Horizonte. Aguarda pelo agendamento de avaliação para cirurgia ginecológica. Os agendamentos seguem ordem cronológica e de prioridade”.
Início do caso de Isabelle Mioni
Segundo Isabelle Mioni, tudo começou há um pouco mais de um ano. No início de sua gestação, ela deu entrada no Hospital da Vila Industrial para dar à luz sua filha. Em seu vídeo na internet, ela já acusa o local de negligência desde este dia.
“Desde que eu fui internada na Vila Industrial eu fui negligenciada. Na primeira vez disseram que eu estava fazendo xixi, na verdade minha bolsa já estava rompida. Demoraram um dia praticamente para acreditarem que eu estava falando que eu tinha alguma coisa errada”, explicou.

Passado cerca de 15 dias após o parto, a jovem começou a sentir intensas dores vaginais, o que nunca havia acontecido antes. De acordo com ela, mesmo voltando “várias e várias” vezes ao hospital público, nenhum médico soube explicar os incômodos.
“Eles me diziam: ‘é normal, é pós parto, você só está com dor’. E não, eu não tinha só dor após o parto. Foi um parto dolorido, óbvio, um parto normal. Mas eu estava bem. Ninguém me avaliava direito. Quando ficou realmente exposto, externo e gigante, uma doutora realmente percebeu”, disse.
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Surgimento de outros problemas
Segundo Isabelle, após os exames de urina, os médicos insistiram em dizer que não havia nenhum problema. Contudo, exames futuros feitos em uma unidade particular apontariam um outra doença causada pela falta do tratamento precoce: carúncula uretal, que acontece quando há uma projeção da mucosa para fora da uretra.
“Eu fui no particular mesmo, pedindo ajuda a familiares, fazendo junção de dinheiro. Mas as minhas condições me impedem [de continuar o tratamento] depois de descobrir tudo o que eu tenho. Eu tenho uma adenomiose. E o único tratamento que foi me passado foi o uso do anticoncepcional que eu uso há um ano já”, disse.
A adenomiose utetina é uma doença que pode causar aumento do útero e processo inflamatório. O quadro gera cólicas menstruais, sensação de pressão e inchaço na parte inferior do abdome no período menstrual, sangramentos irregulares e, nos casos mais graves, hemorragias.

Em contato com o Portal SP RIO+, Isabelle disse que frequentemente faz uso de medicação para dores e para controle emocional. Seus banhos também têm sido realizados sentados, para evitar as dores.
“Não tenho vida sexual, não me reconheço como mulher. Acordo todo dia somente pela minha filha e luto por ela. Eu não tenho coragem de pisar lá e realizar qualquer tratamento na mão deles novamente, me causaram danos físicos e psicológicos”, disse.
Repercussão do caso Isabelle Mioni
Ainda segundo o vídeo publicado na internet, Isabelle Mioni afirma continuar tendo perda de urina e muitas dores, ao ponto de seu quadro clínico ter evoluído para uma cistocele, popularmente chamada de bexiga caída, que faz com que os órgãos pélvicos percam sua sustentação.
“Não consigo pegar minha filha no colo porque eu sinto dores infinitas, cólicas infinitas, dores mensais, no mês todo, escapes fora de hora, porque não tem regulação hormonal. Até quando eu vou viver assim? […] Essa violência obstétrica que eu sofri não dá pode me calar mais”, questionou.
Após a publicação nas redes sociais, centenas de pessoas se sensibilizaram com a situação. Em uma vaquinha online, Isabelle Mioni conseguiu, em poucas horas, a quantia de R$350,00. O valor é referente à uma consulta com uma médica particular para analisar a possibilidade de uma cirurgia de correção de um prolapso e histerectomia.
O que é violência obstétrica?
De acordo com publicações da Defensoria Pública do estado de São Paulo, a violência obstétrica é caracterizada da seguinte forma:
Apropriação do corpo e processos reprodutivos das mulheres pelos profissionais de saúde, através do tratamento desumanizado, abuso da medicalização e patologização dos processos naturais, causando a perda da autonomia e capacidade de decidir livremente sobre seus corpos e sexualidade, impactando negativamente na qualidade de vida das mulheres.
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