A história do bolinho caipira divide opiniões entre os moradores do Vale do Paraíba. Enquanto uns defendem que sua origem foi em São José dos Campos, outros acreditam que foi em Jacareí. Há ainda aqueles que citam Paraibuna ou Monteiro Lobato.
De massa crocante, recheio de carne ou linguiça e temperatura quentinha, a receita tem sido passada de gerações a gerações.

Se antes o prato era o principal símbolo das festas juninas e quermesses da região, hoje ele é preparado durante o ano inteiro.
Por isso, a SP RIO+ conversou com estudiosos do assunto para entender melhor a história do bolinho caipira!
Existem documentos que comprovem a origem?
Apesar da tradição, não há documentos que comprovem a origem do bolinho caipira.
Assim como a maioria das histórias da cultura popular, a história do bolinho caipira vem sendo transmitida de forma oral há anos.
É o que explicou historiadora Maria Angélica Peres, que atua no Museu do Folclore de São José dos Campos.
Segundo ela, o prato típico alimentava os católicos durante a Semana Santa da cidade.
Qual é a origem do bolinho caipira?
Conforme conta a cultura popular, o bolinho caipira teria surgido na Igreja Matriz de São José dos Campos entre os anos de 1920 e 1930, para alimentar os fieis durante a festividade da “Procissão do Senhor Morto”.
Em outras palavras, é um desfile religioso realizado anualmente pela Igreja Católica na sexta-feira antecedente à Páscoa (Sexta-feira Santa), em honra da crucificação e morte de Jesus Cristo.
“As pessoas ficavam na Igreja em vigília, principalmente na noite da Sexta-feira Santa. E aí elas precisavam se alimentar. Então as voluntárias da Igreja ficavam nas barracas preparando algo para alimentar esses fieis, que vinham de todas as partes do Vale do Paraíba para participar”, explicou a historiadora, que é formada pela Univap (Universidade do Vale do Paraíba).
Segundo ela, começava ali a história do bolinho caipira. Mas não com o recheio que conhecemos hoje.
Naquela época, a iguaria era preparada com lambari, um pequeno peixe muito comum no Rio Paraíba do Sul, que banha a região.
“Os católicos não comem carne vermelha durante a Semana Santa. Então as voluntárias preparavam o bolinho com o lambari. Preparavam a massa, limpavam o lambari e recheavam o bolinho, deixando a cabecinha e o rabinho do lado de fora”, explicou Maria Angélica.
Bolinho caipira tradicional
Apesar de sua origem remeter ao lambari, o bolinho caipira tradicional de São José dos Campos hoje é de carne.
Conforme explicou a historiadora Maria Angélica, isso aconteceu por dois motivos:
Primeiramente, a diminuição da quantidade de lambaris no Rio Paraíba do Sul ao longo dos anos.
Em segundo lugar, a diminuição da quantidade de fieis que passavam a noite em vigília na Matriz, por questões de segurança.
“Aí as voluntárias da Igreja levaram essa receita para o período de festas juninas, para arrecadar dinheiro para ajudar na construção do Asilo Santo Antônio. Como o bolinho já não era feito só no período da Semana Santa, não tinha mais a necessidade de usar peixe como recheio. Foi aí que começou a se fazer bolinho com carne moída”, explicou à SP RIO+.
Bolinho caipira de linguiça

Por outro lado, há quem defenda que a história do bolinho caipira tenha origem em Jacareí, quando era feito de linguiça.
É o que explicou Fernando Romero, de 58 anos, criador do portal Site de Jacareí, que destaca a história da cidade.
“É uma coisa dos tropeiros, que iam em direção para Minas e tinham que cortar por Jacareí e cidades do Vale. Como a base da alimentação deles era a farinha de milho, em cada lugar foi desenvolvendo um tipo de bolinho”, explicou.
Conforme ele contou, em Jacareí popularizou-se a farinha branca e a linguiça. Já em São José dos Campos, a farinha amarela e a carne moída.
“O recheio variava de acordo com o lugar que a pessoa estava. É que nem pizza, você pode colocar o que você quiser lá dentro. Pode até inventar um recheio”.
Entretanto, a popularidade do prato nem sempre foi alta assim.
“O pessoal da região tinha vergonha de mostrar que comia o bolinho caipira, pois era um prato muito pobre. Era chamado de “mata-fome”. Um bolinho de farinha. Botar um recheio dentro, que poderia ser uma carne-moída, era meio vergonhoso para mostrar a um forasteiro”.
Negócios

Com tamanha fama, hoje o bolinho caipira tornou-se um negócio. O Pedro Eras, por exemplo, comercializa 16 sabores.
Sua empresa, a Bolinhos Ôcaipira, com sede São José dos Campos, comercializa brócolis com bacon, pizza, frango com catupiry, calafrango, calabresa, 3 queijos, chocolate, beijinho, mineirinho e romeu e julieta, além da carne e da linguiça, claro.
“Eu sempre tive uma receita de família que era muito elogiada pelos amigos. Uma vez eu perdi o emprego e um amigo me pediu que eu fizesse bolinhos caipiras para ele em uma festa. Lá, ele comentou que eu estava pegando encomendas. No outro dia muita gente me ligou encomendando. Foi assim que eu comecei a empresa”, relembrou.
Segundo o empreendedor, o comércio de bolinhos caipiras hoje é promissor.
“Está em expansão. Também estamos entrando em supermercados, com congelados em bandejinhas. Estamos até estudando franquear a nossa empresa. Muitas empresas têm hoje o bolinho caipira como carro-chefe”, explicou à SP RIO+.
Entretanto, ele garante que a história do bolinho caipira começou em Paraibuna. Na época, as comunidades ribeirinhas preparavam o alimento com lambari e farinha de milho, para depois assa-lo na fogueira.
“Pelo o que a gente pesquisou, anos atrás, a história mais condizente com os fatos é a história de Paraibuna”, garantiu.
Quantas gramas tem um bolinho caipira?
Conforme explicou Pedro Eras, uma unidade de bolinho caipira tradicional tem em torno de 74g. O número pode aumentar ou diminuir, dependendo do recheio utilizado.
Quantas calorias tem um bolinho caipira?
A quantidade de calorias de uma unidade de bolinho caipira pode variar de acordo com o tamanho e o recheio. O tradicional, feito de carne, possui 118kcal.
A informação é da tabela nutricional disponibilizada à SP RIO+ pelo Pedro, montada por nutricionistas para a sua empresa, a Bolinhos Ôcaipira.

Feira do bolinho caipira

Ainda assim, a história do bolinho caipira continua sendo escrita nos dias atuais. Além da questão gastronômica, hoje a iguaria é um patrimônio cultural da região.
Por exemplo, em Jacareí, a Lei 5497, de 2010, registrou o bolinho caipira da cidade como patrimônio cultural municipal por meio do CODEPAC
(Conselho de Defesa do Patrimônio Cultural).
De acordo com o Site de Jacareí, do Fernando Romero, a receita tombada como patrimônio cultural é de autoria da quituteira jacareiense Ana Rita Alves Gherke, mais conhecida por “Dona Nicota”.
Conforme descrito na lei, ela criou a receita em 1925, quando servia a iguaria em festas juninas da cidade e no Botequim de Café, estabelecimento de sua família, localizado no Mercado Municipal.
Um exemplo disso é a a Feira do Bolinho Caipira, que acontece na cidade. Realizada anualmente pela Prefeitura Municipal, o evento reúne versões do bolinho apresentados por Jacareí, São José dos Campos, Guararema, Redenção da Serra e Paraibuna.
Importância cultural
Para a historiada Maria Angélica, o bolinho caipira traz visibilidade para o Vale do Paraíba.
Ela, que é natural de Campinas, mas mora em São José dos Campos há quase 20 anos, garantiu que a popularidade da quitute é exclusivamente da região e que as outras partes do estado não a conhecem.
“Quando alguém fala do bolinho caipira, podemos não saber a cidade dela, mas a gente logo fala ‘essa pessoa é pelo menos do Vale’”.
O próprio nome do prato já remete à região. É o que explicou o curioso Fernando Romero.
“A região do Vale do Paraíba, na época de Jeca Tatu, era considerada de um povo caipira. Como o bolinho caipira é da nossa região, foi por aí. Nós somos caipiras, o bolinho também, por consequência”.
Assim, o bolinho caipira é um dos principais símbolos do Vale do Paraíba.
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