
A Ford abandonou o Brasil duas vezes. Neste 2021, um século depois da chegada ao país, mandou fechar as então remanescentes fábricas em Camaçari (BA) e Taubaté (SP), além da planta onde fabricava os jipes Troller, em Horizonte (CE). No ano anterior, amargara a quinta posição no ranking de vendas de carros, com 7,14% do mercado, com um chorado prejuízo.
Situação ainda mais desoladora se comparada aos momentos de euforia, a partir de 1921, quando a Ford chegou para fabricar os primeiros carros no Brasil. Debruçados na linha de montagem do Ford T, o Ford Bigode, na fábrica do Bom Retiro, em São Paulo, senhores e senhoras na maior estica, chapéus palheta e gorrinhos de melindrosa, acompanhavam extasiados todo o processo, o capitalismo fazendo história com a produção em massa de veículos. O “fordismo” como solução para o barateamento do produto.
Nenhum dos protagonistas da indústria automobilística sonhava com a avassaladora crise do petróleo, nos anos 70/80, nem com o avanço das montadoras asiáticas e os “fatais” outsourcings. Detroit, nos Estados Unidos, que tanto brilhou com fábricas de carro e aço durante a II Grande Guerra, “arsenal da democracia”, e depois como sede glamourosa das Big Three (Crysler, GM e Ford), foi completamente abandonada. Sinal dos tempos.

Fordlândia
O magnata Henry Ford (1863-1947) tinha tanta inteligência quanto ambição. Era também um inventor com dezenas de patentes. Começou como mecânico numa oficina de subúrbio, na própria Detroit onde instalaria depois a Ford Motor Company, em 1902. Antes disso, um curso de Engenharia lhe abrira os horizontes.
Nos anos 1920, já com a montadora no Brasil a todo vapor, investiu paralelamente na construção de uma cidade completa, a Fordlândia, erguida num distrito do município de Aveiro, interior da Amazônia paraense, numa área de 14 mil km². Corria o ano de 1928 e seu interesse eram as seringueiras, a produção de borracha, matéria-prima para pneus. Falava sempre à imprensa norte-americana, entretanto, sobre missão “civilizatória” antes do lucro. Anos mais tarde, quando as soluções sintéticas apareceram, a Ford abandonou a sua fábrica, as suas casas, o Brasil. Essa foi a primeira vez.
Durante as décadas finais do século 19 e a primeira do século 20, a região amazônica liderou a produção de látex. Até que o explorador britânico Henry Wickham contrabandeou sementes de seringueiras (Hevea brasiliensis) para a Inglaterra. De lá, foram distribuídas para colônias britânicas na Ásia – essa pirataria vegetal era então rotineira.
Os novos players do látex passaram a infernizar as operações de Henry Ford. Extrair e fabricar a sua própria matéria-prima seria uma saída. Para isso, Fordlândia, com toda infraestrutura industrial e habitacional imaginável, foi construída às margens do rio Tapajós. Novos seringais também foram plantados em Fordlândia e Belterra. Ford celebrou um acordo com o governo brasileiro e tinha regalias nas tarifas de exportação. Seus pneus ficavam mais baratos. O abastecimento da fábrica de Michigan estava garantido.
À margem do rio Tapajós
Resistentes, algumas instalações da Fordlândia continuam em pé, apesar do abandono de décadas. Estão ali alguns galpões vazios, com vidros quebrados, outros com máquinas e carros abandonados, uma caixa d’água, equipamentos, máquinas com marcas americanas, que chegavam ao local em embarcações, pelo Tapajós. Está ali o píer histórico. Perto do que restou do sonho de Ford, algumas fileiras de casas. Muitos moradores, depois do fechamento da fábrica, em 1934, permaneceram na vila, aproveitando-se da sua infraestrutura. Hoje existe até um movimento de moradores de Fordlândia lutando pela emancipação política do distrito.

Ao encerrar as atividades, a Ford recebeu US$ 250.000 do governo brasileiro. Em “troca”, entregaram as instalações que ora se deterioram, mato crescendo, “a natureza querendo recuperar seus direitos”, como escreveu o filósofo Bernard-Henri Lévy em “American Vertigo”, sobre sua experiência na Detroit falida.
Campo de golfe, 2 mil casas
Fordlândia, que no seu auge chegou a uma população de cerca de 5.000 pessoas, tinha campo de golfe, 6 escolas, estações de captação, tratamento e distribuição de água, usina de força, estações de rádio e telefonia, igreja, 2 hospitais (um deles foi saqueado em 2020), 30 galpões, 2 unidades de beneficiamento de látex e até um salão de dança. A Ford também entregou em 1945, no acordo oficial e final com o governo brasileiro, 1.900.000 seringueiras nos arredores de Fordlândia e outras 3.200.000 em Belterra. Pelo que se vê hoje, restou pouca coisa.
Henry Ford era um puritano que concebeu a sua cidade para o trabalho. Relógio de ponto, crachás, regras de comportamento, obrigatoriedade das orações dominicais, proibição do álcool, refeições à base de hambúrguer não eram exatamente tradição em uma comunidade ribeirinha amazônica, acostumada com açaí com peixe frito. Essa falta de sintonia provocou muito atrito, mas as causas do fechamento da Fordlândia tem muito mais a ver com os novos rumos da indústria automobilística e de pneus e também com o relativo fracasso no manejo dos seringais. Ford, o homem, morreu em Dearborn, dois anos depois do fechamento completo da Fordlândia, sem nunca ter pisado no Pará.
Tour Coração da Amazônia
As fotografias que inspiraram este texto são de Maurício Guisard, diretor da SPRIO +. Ele integrou um grupo de 11 motociclistas que completou, de 02 a 12 de setembro, o “Tour Coração da Amazônia”, percorrendo 2.400 km, percurso inóspito quase que totalmente em estrada de terra, entre Manaus e Alter do Chão, distrito de Santarém (PA). Passaram por Igapó Açu, Realidade, Santo Antônio do Matupi, Jacareacanga, Rurópolis, entre trechos de grande solidão, de nem sequer um posto de gasolina, um barraco, apenas a floresta como testemunha. No trecho final da viagem, o grupo fez um desvio para conhecer o que tinha sobrado da Fordlândia do lendário Henry Ford, em um distrito de Aveiro (PA). Maurício (o 2º da esq. para a dir.) fez as fotografias que ilustram esta edição.














