Foto: Getty Images
Estacionei o carro na avenida arborizada da minha cidade. O trajeto a pé até meu destino era curto. O vento soprava uma brisa que refrescava o caminho e os meus pensamentos. Distraída fui detida por uma linda menina que me ofereceu balas para comprar.
Seus olhos eram de um azul vivo pouco visto. Seu cabelo tinha uma cor de mel brilhante e sedoso. Parei meu caminhar interrompido por aquele anjinho que cruzava meus passos. Não tinha dinheiro na carteira e recusei a oferta. Sorri para a criança e a admirei. Ela gostou da minha pausa, talvez rara a muitos transeuntes apressados em seus compromissos. Interessada na minha disponibilidade me questionou com uma ingenuidade infantil porque eu carregava duas bolsas. Respondi que uma continha meus documentos pessoais e na outra meu material de terapia, pois ia atender uma senhora.
Com máscara no rosto, ela sorriu com os olhos e me disse como se tivesse diante de uma grande descoberta: sabia que você era médica! Você tem cara de médica! Não querendo estragar a adivinhação da menina-anjo assenti com a cabeça, achando desnecessário explicar que era fonoaudióloga e não médica. Perguntei, devolvendo a curiosidade, se a menina era modelo, pois tinha uma beleza encantadora. Com o sorriso, agora escancarado, ela respondeu que não, que apenas vendia bala no sinal. Meu coração se constrangeu com a resposta. Reflexiva percebi uma realidade tão comum no nosso país. Crianças trabalhando ao invés de estudando, brincando, sequelas de um país subdesenvolvido com muitas desigualdades.
Me despedi da pequena e continuei meu percurso, agora com outros pensamentos. Atravessei a rua e me deparei adiante com outra menina-anjo, muito parecida com a primeira. Ela também me ofereceu balas para comprar. Perguntei se conhecia a outra e logo me respondeu que eram irmãs. Olhei para a primeira menina e a vi agora, sem máscara contorcida se vendo pelo retrovisor de um carro e sorrindo para o espelho. Ali se olhava e conferia a própria beleza infantil. Era a menina-mulher que, como qualquer outra, apreciava um elogio sincero. Fiquei feliz que minhas palavras tinham sido certeiras e provocaram, ainda que num curto período, uma alegria àquela linda menina. Continuei meu percurso refletindo: como a diminuição do nosso ritmo diário, do caminhar tem coisas preciosas a nos revelar, como tantas pessoas passam despercebidas ao nosso olhar, como palavras podem ser transformadoras.