
Você compraria uma roupa para ser usada apenas no meio digital? Não, não me refiro às skins dos personagens dos vídeos-games, mas às roupas para pessoas reais como pra mim pra você! Tô querendo te contar sobre as roupas digitais que são tendências de moda de um mundo tecnológico e evoluído como nosso, anunciando o zeitgeist do nosso século, ou seja, o espírito de um novo tempo!
As roupas digitais são manipuladas virtualmente em softwares 3D para se encaixarem perfeitamente nas fotos de cada usuário. São criadas para uso exclusivo online. Funciona assim: você entra no site das marcas de roupas digitais (acreditem, já existem várias no mundo!), escolhe uma roupa que te agrada, seleciona, paga pela roupa e faz o upload de uma foto sua de corpo inteiro. Em 24h a empresa retorna a sua foto com a roupa adicionada para você poder realizar o download e postá-la nas redes sociais. Simples, não é? Você nem precisa experimentá-la, pois não há risco algum da roupa não servir no seu corpo!
Tá um pouco assustado com a nova tendência? Talvez você seja um pouco antiquado como eu, mas é bom nos acostumarmos porque uma das primeiras roupas virtuais foi lançada em 2019 (há 2 anos!!!) e leiloada por US$ 9.500!!! Isso mesmo, algo por volta de R$ 48.000,00 convertidos em nossa desvalorizada moeda. Com todo esse valor pago a nova modalidade aponta com brilhos (ainda que digitais) e garantias de um futuro promissor!
Vou tentar refletir com você aqui o que nos estranha nessa modernidade. A compra inicialmente é feita pelo desejo estético da roupa, algo que já fazemos há muito tempo. O que é descartado nesse novo jeito é a escolha pelo conforto, do toque do tecido em sua pele, o caimento, o cheiro de roupa nova, as lembranças do pertencer físico da nova peça no seu armário. A supremacia do visual desbanca os outros sentidos que ficam de lado e a compra passa a desconsiderar as experiências estésicas do vestir. Ficando à míngua também estão os aspectos práticos do vestir como a proteção do corpo contra o frio, calor, vento, chuva, afinal, nas redes sociais, não há mau tempo, mas somente àquele que se escolhe apresentar. Com todas essas desfasagens a moda perde seu valor (pelo menos pra mim!) e o vestir associa-se somente a um modo de parecer em detrimento do ser. Escolhe-se a roupa que será mostrada nas redes sociais, sem erros de costuras, desgastes, linhas soltas, tecido amassado. Dá até vontade de valorizar mais as mazelas de um tecido na vida real, não acha?
Tendência ou não vale refletir sobre os rumos que vamos levando diante da evolução tecnológica e das interações digitais. Nesse momento, sinto o toque macio e abraço com alegria meu moletom velho, cheio de bolinhas e de lembranças pelo uso. Apesar das promessas de sustentabilidade da nova Moda, ainda opto pelas medidas sustentáveis de um viver que integra o sentir em todas as suas modalidades!