Há nove anos, quando decidiu morar em São José dos Campos para trabalhar em uma empresa aeronáutica, Indaiá Militão fazia parte de um grupo de 30 designers que atuavam com quatro mil engenheiros, a imensa maioria masculina.
Ela era a única negra do time inteiro e sentia o fato de, não apenas ser mulher e negra, mas também de fazer um serviço considerado “raso” pela maioria dos homens que projetavam aviões.
No entanto, Indaiá era uma das pessoas responsáveis pela especificação das aeronaves mais sofisticadas entregues a celebridades pelo fabricante de aviões.
Ela viajou 18 países para customizar o interior de aviões, definindo desde o carpete, as madeiras, as cores das cortinas até couro dos assentos. Para isso, ela precisou entender de aviões e conquistar o respeito dos colegas.
Indaiá sempre foi muito estudiosa e formou-se em desenho industrial graças a uma permuta que seu pai ofereceu à FAAP. Para manter a bolsa, ela tinha que estar sempre acima da média e também acima do julgamento alheio.
Mas foi no setor automotivo que Indaiá sofreu ainda mais o machismo e o racismo. “Mulher, por caso, entende de carro?”. E mais uma vez foi o conhecimento, a competência técnica, que garantiu seu lugar de fala em meio a tantos homens brancos.

Hoje, ela é também jurada no Museu Tomie Otake, onde conseguiu com os colegas igualar o número de homens e mulheres em cargos gerenciais.
A educação e a cultura, somados ao esforço, resiliência e perseverança, foram as principais armas de Indaiá para ser respeitada. Sua história retrata a história de milhares de brasileiras e negras que ainda sofrem com o machismo e racismo. Ela está disposta a continuar trabalhando para seu filho, que hoje está com 15 anos, possa viver em uma sociedade mais justa e equilibrada.
Letícia Maciel é jornalista, pós-graduada em marketing digital e fundadora da agência BRZ Content. Para enviar sugestões para esta coluna, escreva para @colunaleticiamaciel@gmail.com. Instagram: @leticiamaciel08