O Vale do Paraíba lidera a taxa de isolamento no estado de São Paulo ao mesmo tempo em vira o maior foco de resistência à quarentena do governador João Doria (PSDB), prorrogada de 22 de abril até 10 de maio.
A fila é puxada pelo prefeito de São José dos Campos, Felicio Ramuth (PSDB), que decretou quarentena seletiva na cidade a partir de 27 de abril. Shoppings, restaurantes e lojas do calçadão poderão operar com permissões temporárias, desde que sigam regras pré-determinadas pelo Poder Executivo.
A medida, que contraria decreto estadual da quarentena em São Paulo, é questionada na Justiça pelo Ministério Público.
No mesmo compasso, o prefeito de Taubaté, Ortiz Junior (PSDB), pretende propor medida semelhante ao MP. Juntas, as duas cidades têm mais de 1 milhão de habitantes, 40,5% da população da RMVale.
Também o Codivap (Associação de Municípios do Vale do Paraíba), presidido por Izaias Santana (PSDB), prefeito de Jacareí, enviou carta ao governo paulista cobrando acesso a dados científicos e pedindo avaliação dos dados de São José que balizaram o decreto de isolamento seletivo. O texto pede ainda que o Estado estude a possibilidade de flexibilizar a quarentena na RMVale.
Na entrevista coletiva em que explicou o isolamento seletivo, Felicio disse que a medida será feita dentro de regras e que não deve servir de modelo para outra cidade.
“O exemplo de São José não pode ser usado como copia e cola por outras cidades”, afirmou o prefeito.
Curioso é que os três prefeitos que ‘questionam’ a quarentena de Doria são do mesmo partido do governador, que tem adotado o mantra “fique em casa” em todas as entrevistas coletivas que faz diariamente. “Não é hora de relaxar”, diz Doria.
ISOLAMENTO
A pressão por flexibilizar o isolamento social vem da região com mais cidades no topo do percentual em todo estado, o que vem merecendo seguidos elogios de Doria.
Neste domingo, das cinco cidades que obtiveram taxa acima de 70% no estado, índice considerado ideal, três são do Vale: São Sebastião (73%), Ubatuba (72%) e Lorena (70%). As outras são Ibiúna (74%) e Bebedouro (71%).
A flexibilização da quarentena também enfrenta resistência do Ministério Público.
O chefe do órgão em São Paulo, o procurador-geral de Justiça Mario Sarrubbo, orientou promotores a atuarem nos casos em que prefeitos “abrandem” as medidas de quarentena estabelecidas por Doria.
Pesquisadores também questionaram os dados científicos apresentados por Felicio na coletiva do último sábado (18).
“Não há dúvida de que São José dos Campos tem papel de centralidade na dispersão da epidemia para a região inteira. Precisa de bases técnicas para se tomar a decisão [de relaxar o isolamento]”, disse Raul Borges Guimarães, professor da Unesp (Universidade Estadual Paulista) em Presidente Prudente.
Ele é um dos responsáveis pelo estudo que aponta que o interior terá aumento dos casos de coronavírus nas próximas três semanas.
