
A presença de aves rosa tem chamado a atenção de moradores e especialistas no córrego Vidoca, na zona oeste de São José dos Campos. A ave aquática, chamada de colhereiro é conhecida pela plumagem rosada e pelo bico longo em formato de colher, foi recentemente observada pela equipe do Portal Spriomais em trechos do curso d’água que corta a área urbana do município, historicamente associado à poluição e ao despejo de esgoto.
O colhereiro (Platalea ajaja) é uma ave de grande porte, amplamente distribuída nas Américas, ocorrendo desde o sul dos Estados Unidos até a Argentina. No Brasil, a espécie está presente em praticamente todas as regiões, e sua aparição está diretamente associada a qualidade dos ambientes aquáticos disponíveis.
Sobre a espécie
Segundo o biólogo José César de Souza, formado pela UNESP, o colhereiro é facilmente reconhecido pelas penas rosadas ao longo do corpo, com coloração mais clara no pescoço, que varia do rosado ao esbranquiçado. O bico largo e achatado é uma de suas principais características e é utilizado para remexer a água em busca de alimento, como pequenos peixes, moluscos e anfíbios.
“Ela é uma ave considerada bioindicadora da qualidade do ambiente e precisa muito que esse ambiente seja limpo, porque é muito sensível à contaminação e à poluição. Onde há contaminação muito forte, essas aves não ficariam”, explica.
A espécie costuma ocupar áreas úmidas rasas, como brejos, lagoas, várzeas, banhados, manguezais e margens de rios e riachos. Durante a alimentação, o colhereiro caminha lentamente em águas rasas, movimentando o bico lateralmente para capturar presas aquáticas, comportamento que o torna dependente de ambientes com boa disponibilidade de alimento e uma cadeia ecológica minimamente estruturada.


Embora seja mais comum em áreas naturais ou rurais, o colhereiro também pode utilizar ambientes urbanos quando há condições ambientais adequadas. No caso do Vidoca, os especialistas destacam que alguns trechos do córrego apresentam características favoráveis, como áreas rasas, presença de vegetação e sinais de menor carga de poluentes, o que pode explicar a presença da ave.
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De acordo com o médico veterinário, mestre em Ecologia pela UFRGS e doutor em Ciência do Sistema Terrestre no INPE, Vagner Luis Camilotti, o registro do colhereiro no córrego Vidoca é um sinal promissor, considerando especialmente o histórico de degradação do curso d’água.
“A presença recorrente dessas aves sugere que o Vidoca oferece condições ecológicas mais favoráveis do que em períodos anteriores, refletindo um possível processo de recuperação ambiental”, afirma.
Outras espécies no Vidoca
Segundo Vagner, outras espécies aquáticas e limícolas também já foram observadas no local, como o pernilongo-de-costas-brancas, além de marrecas como a ananaí e a irerê. A ocorrência dessas aves está relacionada à disponibilidade de alimento, que depende de fatores como boa oxigenação da água, menor carga de poluentes e a existência de organismos aquáticos que sustentam a cadeia alimentar.



Apesar do cenário positivo, o especialista alerta que a presença de uma ou poucas espécies, isoladamente, não permite afirmar uma recuperação definitiva da qualidade da água. Aves aquáticas são altamente móveis e podem utilizar áreas ainda impactadas, desde que encontrem alimento suficiente.
“Esses registros devem ser interpretados com cautela científica, como indicadores indiretos e complementares”, ressalta Camilotti.
O portal tentou contato com a Prefeitura de São José dos Campos em busca de informações sobre o estado atual do córrego, porém a administração afirmou não ter dados sobre o assunto.