
Presentemente, eu posso me considerar um sujeito de sorte. Porque, apesar de (não) muito moço, me sinto são, salvo e forte. E tenho comigo pensado: Deus é brasileiro e anda do meu lado. Se é verdade ou não, Belchior disse…
A letra de “Sujeito de Sorte”, lançada por Belchior em 1976 (e que abre esse texto), me veio à cabeça quando vi Wagner Moura erguer o Globo de Ouro de Melhor Ator Dramático na noite de domingo (11). Tava feliz o baiano, soteropolitano raiz, nascido também em 1976, quase 50 anos atrás, colecionador de prêmios. Sujeito de sorte.
Globo de Ouro nas mãos, um prêmio inédito para um ator brasileiro, caminha a passos largos para o Oscar. Será que vem? Tomara, repetindo, com “O Agente Secreto”, o feito de Fernanda Torres com “Ainda Estou Aqui”, dois filmes que acertam as contas com o Brasil e seu passado, mas que vão muito além disso.
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Já não posso sofrer pelo ano passado? Talvez sim, talvez não, mas, com certeza, temos muito a aprender com ele. Até para não repeti-lo, com seus dentes e erros.
Nas entrevistas, Wagner Moura e Kleber Mendonça Filho, diretor premiado com o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro, elogiaram a cultura brasileira. E não fugiram do embate contra o “fantasma” da ditadura, que voltou a rondar o Brasil sob a sombra de Jair Bolsonaro.
Ditadura? Nunca mais. Esse recado, com certeza, tirou a conquista do cinema nacional das lives e das redes sociais das figurinhas de sempre, que falam sobre tudo, aqui, ali e acolá. Faz parte.
Não fazem falta…
Com direito a pipoca e Coca-Cola, vi “O Agente Secreto” semanas atrás. Gostei. Com ressalvas, que podem render outro artigo no futuro. Mas é bom ver a nossa cara, cara de brasileiro, ir lá onde o vento faz a curva e bagunçar o coreto.
A vitória de O Agente Secreto, de Ainda Estou Aqui, de Wagner, Fernanda e toda gente envolvida nisso é a vitória do país diverso, caótico, feliz, urbano, rural, maluco, cruel, mas, sempre intenso, que muitas vezes nos leva à lona.
O Brasil da risada, do futebol, da perna cabeluda, dos guetos, do mar, do sertão. Se o Brasil tiver saída, é pela diversidade, pelo plural, pelo que nos une, não pelo que nos separa. Ainda é injusto? Que pena. Mas prefiro o barulho de arrumar e desarrumar a casa ao silêncio dos cemitérios. O contrário? É dar o troféu pro nosso algoz e fazer nóis sumir. Não é por aí.
Por isso, fico com Belchior, resgatado por Emicida em 2019, em “AmarElo”: tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro; ano passado eu morri, mas, esse ano eu não morro.
Ah, não morro…
Confira a coluna anterior: De jangada leva uma eternidade