
Algumas temporadas de prêmios não se decidem no palco, mas no ar. Precisa ser captada a essência além do discurso oficial, o burburinho que circula entre mesas, projeções privadas, corredores da premiação. A cerimônia do Golden Globes 2026 pertence a essa categoria: sintoma. Quem observou com atenção percebeu que o resultado final não apenas premiou filmes, reorganizou sentidos.
Os números ajudam a localizar o argumento: de vinte e seis categorias, vinte e três previsões feitas aqui anteriormente se confirmaram. Três desvios específicos: Melhor Filme – Drama, onde minha aposta recaiu sobre “Pecadores”; Atriz Coadjuvante em Série, imaginada como consagração tardia de Amy Madigan; e Atriz em Filme para TV, terreno em que Michelle Williams confirmou a força de sua recorrente delicadeza trágica. Erros localizados, sem prejuízo da leitura macro. Pelo contrário: cada um deles ilumina o mecanismo profundo da temporada.
O sistema industrial funcionou como esperado. A Warner Bros. distribuiu seus ativos com inteligência cirúrgica. “Uma Batalha depois da Outra” ocupou categorias estratégicas, consolidando Paul Thomas Anderson como autor total, enquanto “Pecadores” manteve o eixo técnico, musical e comercial. O estúdio venceu antes mesmo de a cerimônia começar. Nada disso altera o curso natural da disputa.
A atuação de Timothée Chalamet, premiada por “Marty Supreme” é daqueles momentos que cheiram a Oscar também. Assim como o prêmio de Rosy Birnes, freneticamente impossível por “Se tivesse pernas, eu te chutava”. Animação e canção, dupla de prêmios quase sempre, consolidou o k-pop como gênero universal, a chiclete “Golden” e a animação “Guerreiras do K-pop” da Netflix, marcaram ponto que também pode virar Oscar.
A ruptura simbólica surgiu com “Hamnet”. Sua vitória em Filme – Drama não desloca o favoritismo estrutural, mas introduz um elemento raro: desconforto. Embora o prêmio de atriz para Jessie Buckley fosse consenso. Chloe Zao estava a quatro anos sem filmar e esse prêmio não legitima apenas o filme; mas a dúvida que traz. Em temporadas previsíveis, a dúvida atua como força corrosiva. Ela não derruba gigantes, mas obriga o campo inteiro a se reposicionar.
Enquanto o foco permanecia nesses movimentos visíveis, outro filme avançava por uma via menos ruidosa. Nosso “O Agente Secreto” deixou de ser promessa para assumir a condição de presença incontornável. Kleber Mendonça Filho finalmente ocupa o panteão dos grandes realizadores perante a indústria mundial. Seu percurso não se baseia em hype, mas em consistência. Cannes abriu o caminho. A crítica internacional sustentou o interesse. As associações consolidaram o discurso. O Golden Globe apenas tornou público esse desenho.
A consagração de Wagner Moura não funciona como gesto simbólico ou concessão multicultural. Trata-se de reconhecimento técnico, dramático e político no sentido mais refinado do termo: política como forma, não como slogan. Moura constrói um personagem fechado, tenso, atravessado por camadas históricas e afetivas. O prêmio não o transforma em candidato ao Oscar; apenas confirma algo que o circuito já sabia.
O dado mais relevante surge no contraste interno da temporada. A Neon entrou no jogo com duas cartas: “Foi apenas um acidente”, de Jafar Panahi, e “O Agente Secreto”. O primeiro mantém prestígio autoral, posição quase garantida no Filme Internacional. O segundo cresce em outra direção: aderência emocional, comunicabilidade narrativa, circulação entre votantes diversos. Essa combinação explica sua ultrapassagem recente e aponta para um cenário menos hierarquizado do que o habitual.
O mesmo vale para a corrida de atuação. A ausência de Moura nas indicações do SAG não enfraquece sua posição; ao contrário, evidencia a fragmentação atual do corpo votante da Academia. O Oscar contemporâneo não se organiza mais em blocos homogêneos. Nele, trajetórias internacionais encontram ressonância sem necessidade de validação total dos sindicatos americanos. O caso recente de Fernanda Torres permanece como precedente claro.
Os prêmios, vistos isoladamente, contam pouco. Observados em conjunto, revelam o estado da indústria. O que a noite dos Globes indicou não foi apenas quem venceu, mas quem passou a incomodar o roteiro previsível. Nesse sentido, “O Agente Secreto” ocupa hoje um espaço estratégico: não lidera, não ameaça diretamente o primeiro lugar, mas desestabiliza o conforto dos favoritos.
Temporadas se vencem assim. Não pela avalanche, mas pela erosão. E, nesse processo silencioso, o filme de Kleber Mendonça Filho deixou de ser tratado como exceção internacional para se afirmar como obra central no debate contemporâneo do cinema. Isso não garante estatuetas futuras. Garante algo mais duradouro: pertinência histórica.
O Golden Globe passou. O mapa mudou. Quem continuar olhando apenas para os números perderá o essencial. O cinema, como sempre, já se moveu adiante.
Fabrício Correia é crítico de cinema, membro da Academia Brasileira de Cinema e da União Brasileira de Escritores. Especialista em premiações internacionais, acertou 88,5% da premiação desta edição do Golden Globes.
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