
São José dos Campos chega à véspera de Natal com aquela elegância distraída de quem vive depressa: a Dutra continua correndo ali ao lado como uma frase que não termina, a avenida Juscelino Kubitschek ainda derrama carros como se o dia não tivesse acabado, o Centro insiste em sua luz antiga entre vitrines do Calçadão e passos apressados, e o Banhado, esse pedaço de silêncio mareado no meio do concreto, fica olhando tudo com a paciência de quem sabe que a pressa é só uma maneira moderna de não sentir.
É uma cidade que trabalha muito e, por trabalhar muito, às vezes esquece de respirar; mas nesta noite, mesmo sem ninguém decretar, surgem pequenos sinais de que algo amolece por dentro: no Mercado Municipal, o sujeito da banca faz uma graça com o freguês como se fosse parente; na porta de uma padaria em Santana, alguém segura a sacola do vizinho que não consegue equilibrar o café e o celular; em frente à Igreja Matriz, no coração da praça, passa uma família que parece ter se reencontrado na calçada, e a conversa, essa coisa tão simples, tão rara, vira o enfeite mais convincente de toda a cidade.
A véspera tem esse dom meio incoerente de colocar o coração para trabalhar sem carteira assinada: ela puxa de volta nomes e lembranças, faz aparecer a cadeira vazia no canto da sala, lembra do telefonema que ficou para depois, do abraço que não aconteceu por orgulho, da pessoa que a gente ama e trata como se fosse eterna, e então, no meio de um bairro qualquer, Vila Adyanna, Jardim Aquarius, Campos dos Alemães, Bosque dos Eucaliptos, Urbanova, a vida doméstica ganha uma gravidade que não se compra, porque Natal não é tanto uma noite feliz quanto uma noite em que a felicidade, quando aparece, parece merecida.
E, enquanto isso, a cidade real continua, porque ela nunca tira folga: tem plantão no Hospital Municipal, tem gente entrando e saindo da UPA, tem guarda em guarita, tem motorista cruzando a ponte e o viaduto, tem alguém varrendo calçada no fim do expediente, tem trabalhador fechando portão de comércio, e é nessa São José sem pose, com suor e gentileza improvisada, que mora o espírito natalino mais honesto, aquele que não precisa de propaganda para existir.
Agora vai? Prefeito confirma mostras da Pinacoteca na Casa Olivo Gomes em 2026
Quem mora aqui sabe que a beleza da cidade não está só nas fotos de cartão-postal, mas nesses pontos onde ela fica humana sem perceber: a caminhada no Parque Vicentina Aranha, com suas árvores e suas conversas baixas; o Parque da Cidade, onde a tarde parece sempre mais comprida do que o relógio; a subida para São Francisco Xavier, que muda a respiração e dá ao pensamento um pouco de altitude; o mirante que encara o Vale como quem encara um destino; e, claro, o Banhado, que à noite vira quase uma lembrança de infância, quando a gente acreditava que o mundo era grande e, por ser grande, cabia esperança.
Nesta véspera, talvez a melhor forma de celebrar seja fazer um pacto particular com a cidade: diminuir a impaciência, a ironia automática, o prazer de passar reto, e trocar isso por uma delicadeza sem alarde; um “você está bem?” de verdade, um pedido de desculpas sem discurso, um prato a mais, uma visita, um tempo oferecido como quem oferece água; porque presente, no fim, é isso, e todo mundo sabe, embora finja esquecer o ano inteiro.
Que São José dos Campos, com sua serra ao fundo e sua pressa na frente, encontre nesta noite uma maneira bonita de desacelerar por dentro, sem precisar parar por fora, e que cada casa; cheia, vazia, barulhenta ou silenciosa sinta ao menos um instante de calor que não vem de luzinha natalinas, mas de atenção.
Feliz Natal. Que ele seja simples, verdadeiro e humano, como a melhor parte da cidade quando ninguém está olhando.
Sobre o autor: Fabrício Correia é escritor, jornalista e professor universitário. Membro da União Brasileira de Escritores, presidiu a Academia Joseense de Letras. É publisher do Acontece, suplemento impresso do grupo spriomais, em parceria com a Kocmoc New Future.
Leia também: Homo imbibens e a arqueologia do vinho paleolítico: ‘que gostinho de mamute!’