
“Enquanto o mundo debate, as ondas continuam a erodir parte da ilha. Enquanto continua a discutir, as esperanças da juventude tuvaluana desaparecem. Nós contribuímos menos para a crise, mas pagamos o preço mais alto.”
Assim lembra Grace Malie, jovem ativista climática de Tuvalu, ao descrever a vida no pequeno arquipélago de atóis no Pacífico. Tuvalu, com pouco mais de 11 mil habitantes e uma altitude média inferior a 2 metros acima do nível do mar, está entre as nações mais vulneráveis do planeta aos efeitos da mudança climática. Mesmo onde a vida sempre girou em torno do mar, agora ele se aproxima de forma implacável e não como metáfora, mas como realidade cotidiana.
Recentemente, um marco histórico aconteceu: os primeiros migrantes climáticos de Tuvalu chegaram à Austrália, sob um programa pioneiro de vistos criados para enfrentar justamente esse tipo de deslocamento forçado pelo clima.
O que está acontecendo é muito mais do que um movimento populacional isolado. É a materialização de uma tendência global que coloca em xeque modelos tradicionais de migração, direitos humanos, soberania e responsabilidade corporativa, exatamente os pilares sobre os quais se sustenta o ESG.
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Migrantes climáticos são pessoas deslocadas principalmente por impactos das mudanças climáticas, elevação do nível do mar, secas prolongadas, eventos extremos e perda de recursos naturais que tornam seu ambiente de vida insustentável. No caso de Tuvalu, cientistas estimam que, se as tendências atuais continuarem, parte relevante do território poderá se tornar inabitável até 2050.
O acordo entre Austrália e Tuvalu representa uma mudança profunda na forma como o mundo começa a lidar com esse desafio. Não se trata apenas de acolhimento emergencial, mas de planejamento, integração e reconhecimento de dignidade.
Lições para líderes e empresas
O caso de Tuvalu deixa um recado claro para quem toma decisão hoje. Planejar antes da crise deixou de ser virtude e passou a ser requisito mínimo de liderança. A migração climática não surgiu de um evento inesperado, mas de sinais acumulados ao longo de décadas, ignorados ou tratados como futuros distantes. Da mesma forma, empresas que incorporam riscos climáticos, sociais e territoriais em suas estratégias não estão sendo idealistas, estão sendo pragmáticas.
Há também uma lição humana incontornável. Respostas dignas, que preservam identidade, cultura e acesso a oportunidades, constroem resiliência real. Quando políticas públicas e iniciativas privadas colocam as pessoas no centro, os impactos positivos se multiplicam, fortalecendo comunidades, cadeias produtivas e reputações no longo prazo. Insisto aqui na coluna quase que semanalmente: ESG não é discurso, é a capacidade de agir com empatia sem abrir mão de eficiência.
E o Brasil nisso tudo
Se a migração climática internacional parece algo distante, basta olhar para dentro. O Brasil convive com deslocamentos forçados pelo clima há décadas. O fenômeno conhecido como indústria da seca, que impulsionou êxodos em massa do Nordeste para outras regiões durante o século 20, é um dos maiores exemplos de migração ambiental já registrados no hemisfério sul.
Estudos da Fiocruz e do IBGE indicam que, somente entre 2016 e 2020, mais de 1,2 milhão de brasileiros foram obrigados a deixar suas casas por desastres ambientais, especialmente secas, enchentes e deslizamentos.
E as pressões só aumentam. Segundo o Painel Brasileiro de Mudanças Climáticas, cerca de 40% dos municípios do país já enfrentam algum nível de risco hídrico. No Sudeste, a Agência Nacional de Águas alerta que 60% dos rios monitorados apresentam indicadores de estresse, perda de qualidade ou redução de vazão. Esses mesmos rios serão essenciais para a transição econômica brasileira, especialmente porque o Brasil é não apenas agro, mas agrodependente de água.
O que Austrália e Tuvalu inauguram não é apenas um acordo migratório, é um alerta sobre o século que já começou. E, no caso do Brasil, é também um espelho. Um país continental que ainda hesita em assumir a urgência do seu próprio clima.
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