
Uma publicação na rede social X (antigo Twitter) feita na última terça-feira (25), chamou a atenção de moradores em São José dos Campos. Na imagem, um jovem aparece em um ônibus segurando a placa de sinalização da Avenida Dr. Nelson d’Avila, uma das vias mais movimentadas da região central da cidade.
A postagem trazia a legenda “#cleptotwtsjc clepto girls twt são josé dos campos kanoeng snooker”. Os termos iniciais servem como código para identificar a #cleptotwt (ou “clepto twitter”), uma subcultura digital onde usuários — muitas vezes autodenominados “clepto girls/clepto boys” — compartilham furtos reais como forma de entretenimento e validação online; somente após essa demarcação de “tribo”, a legenda cita o “Kanoeng Snooker”, referenciando um bar tradicional localizado na própria avenida.
O portal entrou em contato com a Prefeitura sobre o caso, porém ainda não obteve resposta.
O episódio não se trata apenas de um caso isolado de vandalismo, mas expõe a atuação dessa “edgesfera” na região. Nesse nicho, adolescentes e jovens adultos utilizam as redes sociais para exibir itens furtados, transformando atos ilícitos em busca por engajamento.
Para compreender a dinâmica desse fenômeno e os riscos associados a essas “trends” de vandalismo, conversamos com a especialista Michele Prado, renomada na área de radicalização, extremismo e terrorismo online.
Confira abaixo a entrevista coma Pesquisadora.
1- Spriomais – O que é exatamente a #cleptotwt? Como explicar para quem não vive essas bolhas da internet?
Michele Prado – É uma subcultura online nociva que integra o que nós do Núcleo de Prevenção à Violência Extrema – Ministério Público do Rio Grande do Sul (NUPVE-MPRS) chamamos de “edgesfera”, um ecossistema digital baseado em valor de choque, humor transgressor, trollagem e conteúdos que buscam testar limites sociais e legais.
Essas comunidades não existem isoladamente: há constante migração de usuários entre diferentes bolhas e, muitas vezes, um redirecionamento para ambientes ainda mais nocivos, inclusive redes transnacionais violentas e sádicas, como a COM/764.
A #cleptotwt emula um CID associado à cleptomania. Não significa que esses adolescentes apresentem o transtorno, mas que reproduzem comportamentos e sintomas semelhantes a partir da radicalização online, o que cria uma sensação distorcida de identidade e pertencimento à subcultura.
Parte dos mercadores linguísticos nessas subculturas digitais nocivas, inclui o uso do emoji do “mirtilo” e do verbo “mirtilar” (que significa roubar). E como “colheita” (referente aos furtos colhidos), elementos que funcionam como marcadores internos de linguagem, reforçando laços e códigos do grupo.
No NUPVE, orientamos profissionais de educação. Redes de proteção e instituições por meio do nosso “Projeto Sin@is” sobre esse tipo de subcultura on-line nociva, seus riscos e o potencial de escalada para comportamentos mais graves. Esses fenômenos não são “brincadeiras inofensivas”, mas portas de entrada para ambientes onde práticas desviantes, violência e transgressão são normalizadas e incentivadas.
Para quem está de fora, funciona como um “clube” online onde usuários, muitas vezes adolescentes, exibem objetos que pegaram sem autorização e recebem curtidas e comentários como recompensa. A prática mistura transgressão, brincadeira e busca por visibilidade.
O grande problema é que, ao transformar o ato ilegal em entretenimento, a hashtag normaliza o comportamento e incentiva outros jovens a repetir a ação para ganhar engajamento.
2- Spriomais – Você acompanha esse movimento? Ele tem crescido e impactado o mundo real?
Sim. Nos últimos anos, esse tipo de subcultura e comunidades digitais de risco vem crescendo exponencialmente. Mais exposição às telas, crianças e jovens cronicamente online sem controle parental efetivo e as próprias dinâmicas virtuais que premiam o conteúdo que gera reações emocionais rápidas e dopamina. Embora muita gente trate como piada, já observamos casos em que jovens cometem furtos explicitamente para poder gravar, postar e participar da trend. Ou seja: o conteúdo não é consequência do ato, ele é a motivação.
3- Spriomais – No caso do furto da placa de São José dos Campos, o que costuma motivar esse tipo de comportamento: desejo de transgressão ou vontade de gerar conteúdo?
Geralmente, os dois. Para muitos jovens, há um componente de desafio, de testar limites, de ganhar status intragrupo e pertencimento, algo como “olha até onde eu consigo ir”, combinado com a expectativa de viralizar. O furto vira performance, prova de coragem, ritual de pertencimento.
A visibilidade online funciona como recompensa imediata, e isso tem impulsionado comportamentos que talvez não ocorressem sem a perspectiva de transformar o ato em conteúdo.
4- Spriomais –O que prefeituras e órgãos públicos podem fazer para coibir esse tipo de ação? Há protocolos para lidar com crimes exibidos online?
As prefeituras e órgãos públicos precisam, antes de tudo, compreender que esses não são “crimes comuns”. Eles fazem parte de subculturas online nocivas, com dinâmicas próprias, códigos internos e alto potencial de escalada.
No NUPVE, por meio do projeto Sin@is, capacitamos instituições justamente para reconhecer e lidar com esses fenômenos de forma técnica e preventiva.
No plano operacional, há medidas fundamentais como o registro imediato do caso, coleta e preservação das provas digitais e acionamento da polícia especializada em crimes cibernéticos; solicitação de preservação e remoção do conteúdo às plataformas, evitando que o vídeo continue circulando como incentivo; campanhas educativas em escolas, explicando as consequências legais e sociais desse tipo de ato e desmistificando o discurso de humor que encobre a ilegalidade e fluxos integrados entre prefeitura, segurança pública e Ministério Público para garantir rápida responsabilização.
E é essencial reforçar: ainda que apresentado em tom de piada, trata-se de crime contra o patrimônio público. Tratar o episódio com seriedade é crucial para evitar que comportamentos impulsionados por subculturas online escalem para ações mais graves, algo que, infelizmente, observamos com frequência nesses ecossistemas digitais de risco.
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5- Spriomais -Por que surgem hashtags como #cleptotwt?
Essas comunidades florescem porque o ambiente digital recompensa o comportamento transgressor quando ele é apresentado com humor. O meme serve como “máscara moral”: o indivíduo acredita que, se está rindo, não está cometendo algo grave.
Além disso, hashtags criam senso de pertencimento, competição e reconhecimento (aumento do status intragrupo), quem posta algo mais audacioso conquista mais visibilidade e influência.
6- Spriomais – Esse fenômeno lembra outros desafios virais que encorajam comportamentos ilegais ou arriscados?
Sim. Há paralelos claros com outras trends que envolvem vandalismo, agressões, riscos de autolesão até o extremismo violento em massa. Em todos os casos, o padrão é o mesmo: jovens radicalizados online.
7- Spriomais –Postar o crime facilita a responsabilização ou pode gerar efeito manada?
Ambos. Por um lado, a autopostagem fornece provas importantes e agiliza frequentemente a investigação. Por outro lado, a viralização pode incentivar imitadores e potencializar o fenômeno copycat, e ainda em alguns casos, provocar linchamentos virtuais e desinformação.
O ideal é que a resposta seja técnica, com coleta de evidências e investigação oficial, evitando o espetáculo digital que reforça o ciclo de danos.
8- Spriomais – Até que ponto o algoritmo contribui para esse tipo de comportamento?
É um vetor muito relevante. Plataformas com funções de algoritmos tendem a exibir o que retém atenção e comportamentos transgressores geram exatamente isso.
Quando um vídeo de furto recebe muitos comentários, ele ganha prioridade de entrega. Assim, o algoritmo transforma um ato ilegal em algo desejável, porque oferece a recompensa mais valiosa para o jovem: visibilidade e status. Mesmo que na infâmia.