
O Urupema amanheceu hoje como um velho amigo prestes a fazer silêncio. Antes que o prédio desapareça, volto aos corredores que me moldaram porque toda cidade tem um endereço onde a vida da gente se dobra, e um dos meus sempre teve o nome desse hotel.
As feijoadas eram um capítulo à parte. Não eram só refeições: eram vitrines sociais, termômetros da cidade. As colunas sociais do ValeParaibano, do Jornal da Cidade, dos cronistas atentos, sempre buscavam ali seus personagens. Era um desfile natural. Empresários, políticos, artistas, famílias inteiras: todos cruzavam aquele salão como se participassem de um pequeno teatro que São José assistia de longe. Eu adorava estar ali, observando, anotando mentalmente o que cada gesto revelava.
Houve um sábado que nunca saiu da minha lembrança. Entrei no salão com Roberta Close. A sala congelou por um instante. As conversas suspensas, os talheres parados no ar, os olhares se cruzando em surpresa. Não houve exagero: o salão realmente parou. Depois, como uma onda retornando ao mar, o ruído voltou, mais curioso, mais atento. O Urupema tinha essa habilidade: transformava simples entradas em cena.
Os primeiros hóspedes talvez nem imaginassem o que estavam inaugurando: um ponto de encontro, de congressos, de festas de casamento que faziam o salão parecer maior do que era; um abrigo para viajantes que chegavam à noite, cansados, mas surpreendidos pela vista de uma cidade industrial que começava a virar metrópole; um palco invisível de telefonemas urgentes, negociações discretas, confidências sussurradas entre cortinas pesadas e encontros amorosos.
A arquitetura de Delmar Buffulin, as mãos empresariais de Benedito Bento Filho, e depois a rotina precisa e silenciosa da Moreira & Fátima Administração, tudo isso compôs um ciclo que durou quase cinquenta anos. Meio século é quase uma eternidade para um hotel. São gerações inteiras se hospedando no mesmo corredor, repetindo o mesmo trajeto até o elevador, reconhecendo o mesmo perfume do lobby. Há famílias que viram aniversários, natais, reencontros e fins dentro daquele prédio. Há histórias que só existem porque alguém, um dia, dormiu ali.
E agora, 16 de novembro de 2025, o Urupema é apenas um corpo oco esperando seu desfecho. Às 10 horas, bastaram seis segundos e televisionado, veio ao chão sob o aplauso dos “curiosos” que viram a grandiosidade de seu desfecho. O concreto, que antes parecia firme, soou frágil frente aos explosivos. A demolição controlada é o gesto técnico; o aplauso, o gesto humano.
Mas a minha história com o hotel não vive só de glamour. Vive, sobretudo, de sobrevivência.
Num dos momentos mais difíceis da minha vida, quando minha relação com Mônica se partiu e eu precisei reorganizar meus passos, foi ao Urupema que recorri. Peguei meus dois primeiros filhos, depois reatamos, e nos separamos de novo, hoje são sete e fui. Levei também a babá, porque as crianças precisavam de rotina enquanto tudo ao redor parecia sem rumo.
Ficamos uma semana. Uma semana inteira tentando manter alguma normalidade entre malas, mamadeiras, choros, silêncios e aquele esforço imenso de continuar respirando com dignidade. O café da manhã virava refúgio: pão quente, leite, mesas de madeira e o consolo de ver meus filhos, pequenos demais para entender, achando tudo divertido.
Um episódio daquela semana virou tatuagem na memória.
Samuel, a época com seus três anos, brincava com o carrinho onde o Asaf, ainda bebê, repousava. Num segundo de descuido, o elevador abriu, engoliu o carrinho e subiu. Lembro do frio que atravessou meu peito. Corri pelos corredores, chamando portas, apertando botões, pedindo que o elevador devolvesse meu filho. Quando ele voltou, o carrinho estava intacto, o bebê adormecido, e eu me ajoelhei como quem reencontra a própria vida. O Urupema segurou a onda para mim.
Também vivi ali a cidade no seu lado institucional. Quando assumi a direção de Cultura, na Fundação Cultural Cassiano Ricardo, muitas reuniões decisivas nasceram no térreo do hotel. Conselhos, projetos, reestruturações, boa parte das mudanças da institucionalização, começaram ali, em mesas discretas, entre goles de café que carregavam mais política do que açúcar. Era como um gabinete paralelo, onde a cidade era pensada entre uma xícara e outra. A imprensa chamava de “cafés secretos”, mas de secretos não tinham nada, eram apenas momentos de diálogo entre instituições diversas.
E quando soube que o hotel fecharia, voltei para me despedir. Hospedei-me pela última vez para fechar um ciclo que não aceitava distâncias. O último sábado. Caminhei pelos corredores reconhecendo os passos de versões antigas de mim. Toquei as paredes como quem toca um álbum que se conhece de memória. No salão, onde ocorriam as feijoadas, fiquei alguns minutos parado, escutando o eco de sábados que nunca voltam. Já não tinha glamour, estava sob a bandeira dos hotéis populares OYO.
O prédio caiu hoje, mas o que vivemos ali não cai. O Urupema pode virar pó, mas permanece inteiro dentro de nós, joseenses de nascimento ou coração, com seus salões que observavam a cidade, com suas manhãs no café, com seus elevadores que guardaram segredos, e até com a lembrança de Roberta Close entrando ao meu lado num sábado que fez a cidade parar.
Se o hotel desabou para o progresso, que desabe. O que importa continua de pé.
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