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    Você está em:Início » Somos uma multidão anônima no mundo paralelo da cultura
    + Arte na Cidade

    Somos uma multidão anônima no mundo paralelo da cultura

    11 de novembro de 2023Updated:11 de novembro de 2023Nenhum comentário9 Minutos de Leitura
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    De acordo com o historiador Alfredo Bosi, a palavra cultura advém da palavra Colo, que significa em latim “eu moro, eu cultivo”. Também designava as culturas agrícolas (plantar batata, chuchu, pepino, etc) passando depois ao significado atual – o conjunto de ideias e tradições de um povo.

    A paisagem do Banhado tem esse significado ancestral. Uma várzea com montanhas no horizonte, uma névoa matutina ou o indescritível pôr do sol na sua orla, esse o verdadeiro e original cartão postal de nossa cidade. Me desculpem os fãs que não se cansam de fotografar o “Bolinho Caipira”, apelido da recente ponte estaiada numa tentativa de ajuste e pertencimento cultural. Uma pitada de ironia nessa alegoria de cidade tecnológica.

    Lá no Banhado nossa imensa botânica ainda está preservada graças aos históricos domicílios sempre ameaçados pelo domínio da cultura da mercadoria – desocupar a área para fazer mais avenidas? Talvez complexos residenciais? Um fetiche futurista datado nos anos 60-70 que precisa ser atualizado numa vertente mais ecológica, sustentável e pacífica pertinente ao século XXI.

    fotografia mostra intervenção artística de grupo independente em são josé; duas mãos seguram tela laranja, translúcida, em frente à vista para o banhado em são josé dos campos
    Banhado – Projeto BOM BOM, 2009 (Foto: Grupo Núcleo)

    Precisamos recorrer mais às nossas referências culturais antes que nossa botânica se torne asfalto. Queremos uma perspectiva mais otimista de respeito histórico com aqueles que ali sempre habitaram, guardiães do nosso cartão postal original.

    Não queremos nos tornar a cidade idosa e envelhecida pelas glórias passadas, com  dramas contidos, injustiças desagregadoras, supermaterializados. As alegorias envelhecem. Queremos ressignificar nossa visão histórica no futuro preservando nossa generosa e única paisagem contemplativa, o Banhado e seus guardiães.

    Paisagem única – qual outra cidade no mundo tem esse privilégio geográfico no seu centro?

    Será que nos tornamos insensíveis às nossas origens culturais devido às várias ondas migratórias de nossa cidade e por isso assumimos valores importados de consumo como perspectiva cultural? Pelo contrário, fomos favorecidos, essas ondas nos trouxeram uma admirável diversidade cultural espalhada pelos bairros. Santana, por exemplo, primeiro bairro de S. José dos Campos, tem origem mineira.

    O que temos hoje dessa mistura cultural

    Temos inegáveis oportunidades culturais e centenas de artistas produzindo em nossa cidade. Acredito que a presença e qualidade de nossa produção cultural são potentes e a maioria acontece nas bordas, em todas as regiões de nossa cidade.

    Seria incrível termos um Mapa Cultural municipal. Seria mais incrível ainda se a tecnologia se integrasse com a dimensão cultural e revelasse nossa potência artístico cultural para todos.

    Nossa cidade tecnológica com certeza poderia facilmente olhar esta janela de oportunidade na cultura. Um aplicativo cultural municipal, totens digitais culturais nos shoppings centers, no centro da cidade e nos bairros. Pense chegar num shopping e acessar a agenda independente da cidade com espetáculos, shows musicais, infantis, etc. Lembrando que os shoppings têm público de toda região.

    Fazer esse mapeamento revelaria indicativos como localização das iniciativas culturais, se têm sede própria ou alugada, quais atividades desenvolvem, público que frequenta, tipo de organização, agenda, dificuldades e possibilidades de parcerias etc. Informações preciosas para conectar serviços, trocas, materiais, equipamentos e processos artísticos. Nem tudo é questão somente de verba, mas estar em redes organizadas já traria avanços e visibilidade para cultura local. Um Mapa Cultural digital.

    Esta é uma realidade possível e algumas iniciativas já estão acontecendo. No momento está em produção o Mapa da Energia Criativa, Mapa do empreendedorismo criativo do Vale do Paraíba. Uma iniciativa da @edpbrasil, com realização e curadoria da @garimpodesolucoes. Um trabalho imenso que finalizado mudará nossa percepção sobre nossa região e nós mesmos.

    As redes sociais também favorecem a divulgação dos espaços independentes.

    Alguns @s para ilustrar – @teatromarcelodenny, @ciateatrodacidade, @circonoquintal, @teatrosergiomamberti, @teatro.daldeia, @gruponomade.teatro, @ciavelhusnovatus, @teatrodoimprevisto, @teatrodorinoceronte, @espacobalaioo, @jongodaraca, @galeriapoente, @ciabolademeia etc.

    Vai lá e dá uma olhada nos canais do instagram que coloquei acima, será uma surpresa boa. Existe um mundo paralelo da arte e cultura em nossa cidade.

    Paralelas são linhas que jamais se encontram mas os inventores de espaços independentes são um fenômeno urbano e exímios criadores de pontes e conexões para defesa da cultura das humanidades e da arte.

    Leia mais: A inovação do criar tem memória em São José dos Campos

    Esse circuito independente é genuína celebração da arte e cultura locais. São polos relevantes do encontro regular e troca de ideias com um certo grau de informalidade e irreverência que oxigenam suas práticas. Espetáculos, exposições, palestras, oficinas e quantas outras atividades criativas germinam do encontro de artistas e produtores culturais organizados num espaço independente.

    Independentes aqui quer dizer à margem das instituições públicas, sem patrocínios permanentes. Sua sustentabilidade é seu maior desafio e por isso sua existência está sempre ameaçada. Questões de criatividade, estudos, parcerias, conexões, gerência e resiliência são qualidades que estruturam esses espaços e seus artistas – os âncoras. 

    Anônimos e bem visíveis

    Um teatro independente como o Teatro Marcelo Denny, situado no Jardim S. Dimas, tem belo hall de entrada iluminado com balcão, salão para 50 espectadores sentados, palco todo de madeira, grandes cortinas pretas e iluminação profissional. Um projetor não pode faltar e nem ar-condicionado. Equipamentos de som e caixas acústicas completam a lista. Na cozinha temos guarda volumes e o acervo de figurinos, dois banheiros e água potável disponível e gratuita para todos. A fachada é iluminada e sempre retocada porque ser bem recebido no teatro é fundamental.

    Quanto custa o aluguel de um imóvel desse nesse local? Sem funcionários fixos e despesas de manutenção bastante variadas dependendo do que quebra naquele mês. As vezes a porta de entrada que o tambor enferrujado espana ou o ar-condicionado que pifa.

    Acrescentemos luz, água, internet, produtos de limpeza, lâmpadas, site, taxas e impostos. A sobrevivência dos empreendedores está sempre oscilando. Um montante mensal, anual, muito expressivo, driblado pelo estica de um lado que falta do outro, sem folga nunca. Uma resistência, um ideal, uma crença ininterrupta, um comprometimento com a arte e a cultura e com o futuro.

    Os empreendedores sabem que metade das empresas abertas fecham as portas após cinco anos de funcionamento. (Cadastro Central de Empresas, do IBGE.22 de out. de 2020). Imagina um teatro, um espaço independente?

    Pois não é o caso do Teatro Marcelo Denny, que chega aos seus 11 anos, e nem da Cia Teatro da Cidade, que completou 33 anos. Muitos ficaram pelo caminho, fecharam seus espaços. Os grupos continuam trabalhando e são acolhidos por esses que resistem. É nessa questão do esforço hercúleo para manter os espaços independentes que a indignação com a instituição pública da cultura só aumenta.

    Olharmos inúmeros espaços públicos abandonados, ruínas, como os galpões da Tecelagem Parahyba se deteriorando quando sabemos de iniciativas de uso de espaços similares por grupos, coletivos de várias áreas artísticos culturais em parcerias publico – privada, confirma o desperdício criativo que venho apontando.

    Indignação confirmada quando percebemos espaços independentes agonizando para honrar aluguéis e despesas. É só olhar para espaços públicos deteriorando.

    Você já deve ter ouvido falar ou conhece o SESC Pompéia em São Paulo, uma arquitetura muito parecida com os galpões da Tecelagem Parahyba restaurados e sede de um grande SESC.

    Reafirmo minha imensa admiração pelo grande ministro da cultura paulista que faleceu no último dia 29 de outubro. O Prof. Danilo Santos de Miranda , diretor regional do SESC desde 1.984, deixa um legado imenso. Alguém que colocou sua indignação em prática e é nossa grande inspiração. São 43 unidades no estado com previsão de inaugurar mais 11 unidades em 10 anos.

    “Não tenho dúvida de que a cultura e o lazer revitalizam qualquer área”.

    “Cultura, do jeito que eu entendo, é educação – educação permanente. Eu defendo uma sociedade em que o componente educativo e cultural seja colocado no centro e não o componente econômico, político ou social isolado”

    (Prof. Danilo Santos de Miranda).

    A cidade é viva e às vezes invisível

    Patrimônios públicos fechados viram ruinas, o seu uso preserva. Os galpões da Tecelagem estão abandonados sem destino criativo. Nos acostumamos a ver esse abandono assim como a Casa Olivo Gomes, o paisagismo do Parque e tantas outras construções ali no complexo da Tecelagem.

    Nos acostumamos?

    Você talvez tenha percebido algumas vezes que aquela casa, casarão ou um quarteirão quase inteiro do seu caminho de todo dia de repente foram derrubados com tapumes evidenciando uma nova arquitetura ali. Pode ser que antes deste episódio de demolição você nem prestasse muita atenção.

    Nos habituamos facilmente com a paisagem urbana e essas mudanças é que quebram nossa rotina visual.

    Veja: Quanto custa encerrar e recomeçar processos artísticos culturais?

    Acompanhei muitas mudanças em nossa cidade, me interesso por essa construção urbana que revela os valores de nossa época e por consequência observo como a cultura vai reconciliando nosso passado e presente.  Vi inúmeros casarões virarem ruínas e depois estacionamentos, cinemas virarem igrejas, quarteirões inteiros virarem shoppings centers. E assim surgem novas atribuições urbanas e ficamos inebriados usufruindo dessa modernidade e nos ajustando a novos hábitos de consumo.

    São os Espaços Independentes e os artistas que nos apresentam uma leitura original do nosso cotidiano, que manejam a subjetividade de forma fascinante. A complexidade de estarmos inseridos culturalmente não é uma ilusão. Nos aproximarmos da arte nos trás consciência de nossa experiência vital.

    Você lembra de algo muito peculiar da sua família? Um jeito especial de comemorar algo, de cozinhar, de cuidar do jardim, uma música, o cheiro de um bolo saindo do forno, um filme etc. Esse jeito de viver é a sua experiência, sua cultura que se espalha e se integra socialmente com outras.

    Temos tanta produção artístico cultural em nossa cidade, somos um polo irradiador das diversidades culturais e nada anônimos.

    “É preciso acabar com essa história que Cultura é uma coisa extraordinária, cultura é ordinária. Cultura é igual feijão com arroz, é necessidade básica, tem que estar na mesa, na cesta básica de todos. E pra isso é preciso que haja ainda uma conscientização muito grande porque muito dos nossos governantes ainda acham que cultura é uma coisa excepcional”.

    (Gilberto Gil, músico e ex Ministro da Cultura).

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    * A opinião dos nossos colunistas não reflete necessariamente a visão do portal spriomais.

    Pitiu Bomfin

    Pitiu Bomfin

    Artista plástica, curadora e educadora. Formada em Desenho Industrial pela FAAP / SP com pós graduação em Artes Plásticas pela ECA/USP e estudos em Arquitetura.
    Realiza trabalhos de curadoria além de cenografias e figurinos para grupos de teatro.
    Sua pesquisa artística envolve a fotografia, a pintura e processos gráficos muitas vezes utilizando referencias icônicas da historia da arte.
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