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    Você está em:Início » Quase contemporâneos, quase apagados
    + Arte na Cidade

    Quase contemporâneos, quase apagados

    16 de outubro de 2023Nenhum comentário5 Minutos de Leitura
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    Um urinol com assinatura do fabricante “R. Mutt”, de 1917, está no Museu de Arte Moderna de Paris.

    Uma pintura de latas de sopas de 1962 está no Museu de Arte Moderna de NY.

    A pintura “A origem do mundo”, um nu frontal feminino, de 1866, só foi exposto em 1988. As pinturas abstratas realizadas em 1906 por uma artista mulher ficaram ocultas até 1988 abrindo o debate de pioneirismo da arte abstrata por um homem.

    Uma artista brasileira casada com um embaixador brasileiro foi amante de Marcel Duchamp e inspirou inúmeras obras dele, sendo Étant Donné a mais radical.

    Você conhece alguma dessas histórias? São curiosidades envolvendo artistas e suas obras, que de alguma maneira trouxeram reflexões sobre o fazer artístico ou o próprio objeto de arte.

    Nossos dias estão envolvidos por inúmeras curiosidades encobertas por alguns filtros.

    E a arte e a cultura têm muito a ver com isso.

    O macuxi e a arte indígena

    Curioso lembrar que conheci o artista visual da etnia Macuxi, Jaider Esbell, durante a pandemia, através de encontros on line oferecidos pelo Museu de Arte Moderna de São Paulo. Me reconheci a pessoa romântica sobre a cultura indígena que o artista colocava em xeque nas suas produções.

    Cada encontro era um desafio conduzido tranquilamente por ele com tamanha autenticidade que mudou meu olhar sobre a arte brasileira. Como ele dizia sobre os encontros – um esforço coletivo transgeracional. E sobre o movimento da Arte Indígena Contemporânea: “É nada mais, nada menos, que uma armadilha psicodélica”.

    Jaider Esbell, artista, escritor, curador, geógrafo, defensor dos direitos indígenas, se suicidou aos 41 anos, em 2021. Sua participação na 34 Bienal de SP foi histórica.

    Seu ativismo deu novos contornos ao debate da arte no Brasil e a 35ª Bienal de São Paulo é a cereja do bolo desse processo, pois explode com obras antes impossibilitadas de serem vistas como arte.

    Intitulada “Coreografias do Impossível”, esta Bienal é um mergulho na ancestralidade do contemporâneo. As categorias na arte se esgarçaram e a Bienal nos convida a imaginar o impossível no mundo que vivemos.

    Ou seria um convite para retirarmos nossos filtros e olharmos as novas possibilidades com mais curiosidade?

    Essa importante reflexão pode acalmar nossa percepção sobre situações dramáticas ou desconhecidas a que estamos submetidos. Muitas vezes sentimos o mundo e não sabemos nomear o que nos aflige e naquele momento da experiência artística reconhecemos este sentimento.

    Precisamos de muitas oportunidades que propiciem o encontro com a arte pois nesses momentos nos reconhecemos ou ficamos incomodados e isso é sempre positivo. O diálogo intermundos que Jaider propunha está na sua obra e me incomodou muito incialmente.

    “Sensibilizar o olhar”

    A presença da arte na vida traz uma perspectiva inédita num cotidiano muitas vezes exaustivo, repetitivo, cheio de emergências para dar conta. Apreciar obras de arte nos museus, espaços culturais, escolas, parques, praças, nas ruas favorece os diálogos interculturais, nos sensibiliza a olhar e respeitar o outro. A arte e cultura são um direito importante de cidadania.

    Grandes exposições, como a Bienal, envolvem produções muito bem planejadas e patrocinadas. Quando finalizadas, as instituições das capitais fazem itinerancia com recortes de suas grandes mostras anuais e as cidades se candidatam a recebe-las. Precisam, claro, ter estruturas físicas e de pessoas treinadas.

    Quase, quase

    Quase tivemos em São José dos Campos um museu com toda estrutura técnica moderna onde hoje é o CEFE, no Parque da Cidade. Quase tivemos um teatro lá também. O Arquivo Municipal quase ganhou sua merecida sede para preservação de todos documentos da cidade, importante equipamento municipal que existe e resiste bravamente num local inicialmente provisório que se perpetuou.

    Temos o Parque Vicentina Aranha, prédio de 1924, importantíssimo patrimônio histórico de nossa cidade, restaurado e sempre ampliando. Inúmeros eventos importantes ocorrem lá anualmente se mantendo ativo, fazendo valer a frase – o uso preserva. A arte e cultura têm muito a ver com isso, ganha a cidade.

    E quase no limite estão o jardim, a casa sede do Parque da Cidade e todo complexo dos galpões da Tecelagem Parahyba que aguardam, desde 2016, alçar a agenda de cuidados e preservação. Se o uso preserva, o abandono corrói. A arte e cultura têm muito a ver com isso, perde a cidade.

    Importantes patrimônios sem vitalidade cultural empobrecem a cena artística de nossa cidade, um desperdício criativo.

    As curiosidades parecem fascinantes e nos motivam a conhecer mais sobre algum tema, nos desafiam a buscar respostas sobre aquilo que nos instiga. Meu tema é a arte e cultura em nossa cidade, os artistas, educadores e a visibilidade de suas valiosas contribuições.

    O que desperta a sua curiosidade?

    Os ícones? Conhece essa? “Osteria delle Tre Rane” (Taverna das Três Rãs) era o nome do restaurante de Leonardo Da Vinci, sócio de Sandro Boticelli, na cidade de Florença. Soma-se à enorme lista de suas invenções utensílios de cozinha – a máquina de fazer espaguete, o sacarrolhas, picador de alho e o guardanapo. A lista segue entre curiosidades e lendas sobre o gênio também confeiteiro do duque Ludovico de Milão.

    Entre a cultura popular, o hip hop, cinema, literatura, artes plásticas, música, dança, teatro, temos uma curiosa e vibrante cena cultural em São José dos Campos movimentando uma rede imensa de profissionais criativos. E isso tem tudo a ver com a arte e cultura, ganha a cidade.

    caçamba de lixo artística revestida por papéis que simulam um jornal. escultura faz parte do projetio caçamba, do grupo núcleo do SESC São José dos Campos, realizados em 2009.
    Projeto CAÇAMBA – grupo núcleo, SESC São José dos Campos, 2009 (Foto: Pitiu Bonfim)

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    Pitiu Bomfin

    Pitiu Bomfin

    Artista plástica, curadora e educadora. Formada em Desenho Industrial pela FAAP / SP com pós graduação em Artes Plásticas pela ECA/USP e estudos em Arquitetura.
    Realiza trabalhos de curadoria além de cenografias e figurinos para grupos de teatro.
    Sua pesquisa artística envolve a fotografia, a pintura e processos gráficos muitas vezes utilizando referencias icônicas da historia da arte.
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