Uma experiência muito marcante para mim foi criar um atelier livre de artes infantil no Instituto Recriar, em São José dos Campos. Foi em 2006.
Para unir minha experiência com processo criativo às referências de ensino da arte para crianças, precisei pesquisar muito e considerar a realidade comunitária onde estávamos inseridos.

A filosofia educacional do Reggio Emilia se tornou a grande inspiração para a estrutura do atelier e as atividades que desenvolvemos por 10 anos seguidos. Uma pedagogia que nasceu no pós-segunda guerra na Itália com olhar voltado para a escuta, interesses, potencialidades e habilidades das crianças.
A comunidade inteira de Villa Cella, na região de Reggio Emilia, construiu a partir de escombros a primeira escola Reggio, criando a Pedagogia da Escuta, as Cem Linguagens da Criança, que se tornaram referência mundial.
Conseguimos organizar aqui em S. José dos Campos um atelier infantil de exploração criativa com liberdade e segurança, ajustando e aprofundando práticas de maneira continuada.
Arte e cultura na educação
Vem desta experiência minha convicção e entusiasmo quando falo de arte e cultura na educação. Minha prática como artista cresceu muito contaminada pelos processos criativos das crianças que se expressavam de maneira dinâmica, desenvolvendo percepções sobre si e o grupo, aprendendo expressar suas emoções, descobertas e questionamentos.
A educação me parece ser um dos maiores desafios que estamos enfrentando no século XXI que poderá “ser uma jornada fascinante onde a mudança será a única constante”. (Esse um pensamento de Yuval Harari, expresso no livro 21 lições para o século 21, editado pela Companhia das Letras.)
O sistema de educação está em cheque com a Inteligência Artificial, os professores trabalham com essa presença complexa no seu dia a dia atentos para conciliar as metodologias com os novos e constantes recursos tecnológicos, de maneira complementar e não de substituição.
Para requalificar e inventar dentro do próprio sistema enquanto ele funciona, é necessário adquirir novas habilidades como a criatividade e a capacidade de aprender continuamente.
Acredito que inserir arte e cultura de maneira sistematizada e constante nas escolas irá contribuir para o desenvolvimento do pensamento criativo e crítico. A prática constante na escola somada às vivências promovidas por museus, bibliotecas e espaços culturais irão desenvolver o senso de território, o reconhecimento de sua própria história, criando conexões entre passado, presente e futuro. E são essas conexões que irão estimular a curiosidade para novos conhecimentos.
Ousadia joseense
A ousadia que a nossa cidade experimentou nos anos 50 e 60 pode ser reconhecida no nosso presente. Quais recursos precisamos para conectar nossa trajetória para o futuro?
Existiu em São José dos Campos nos anos 60 uma importante Escola de Belas Artes planejada e dirigida pelo artista holandês Johann Gütlich (Roterdã, Holanda 1920 – São Paulo, SP 2000), a convite do então prefeito Elmano Ferreira Veloso.
Convidado pelo MAM SP para expor em 1953 e 1957, Johann Gutlich formou um corpo docente notoriamente reconhecido, disseminando o alto nível da Escola, que atrau profissionais de outras cidades e movimentos artísticos diversos para a nossa cidade.
Muitos artistas do movimento concretista e neo concretista, como Alfredo Volpi, Décio Pignatari, Hermelindo Fiamingh, frequentaram o Ateliê Livre de Pintura coordenado pelo médico e artista Estevão Nador.
Foi um período de convivência da tradição no ensino com a experimentação de novas práticas e posturas estéticas. O Ateliê Livre de Pintura ocupou inicialmente o antigo sanatório Esras, onde atualmente está o Parque Santos Dumont. As artistas Sônia Oliveira, Luiza Irene Galvão e Eliane Borges frequentaram o Ateliê e são pintoras consagradas cujas obras merecem mais visibilidade e referência histórica em nossa cidade.
Vanguarda do CTA e INPE
Pouco antes, nos anos 50, uma ousada e inovadora iniciativa nacional construiu um Centro Tecnológico que envolveu pesquisa e ensino de vanguarda. Falamos de CTA e ITA, que frutificaram com INPE e Embraer, entre tantas outras iniciativas de pesquisa e produção.
O planejamento urbano e a arquitetura de casas e prédios dessa “vila”, fora da cidade de São José dos Campos, atenderia inicialmente centenas de famílias brasileiras e estrangeiras e teve a assinatura do grande arquiteto brasileiro Oscar Niemeyer.
Zanine Caldas, arquiteto e designer, precursor da defesa do meio ambiente, desenvolveu todo o mobiliário residencial do CTA, cuja estética inovadora aliada à sua pesquisa de materiais tornaram muitas de suas peças ícones internacionais do design brasileiro.
O paisagismo do Parque da Cidade é um dos mais de 3 mil jardins que o artista e paisagista Roberto Burle Marx criou pelo mundo. O paisagismo do Parque é da década de 50 também.
Legado artístico e cultural
Sem saudosismo desta época, coube aqui apenas o reconhecimento de um período no qual poder público e privado atuaram de maneira decisiva e ousada, propiciando um legado artístico cultural e arquitetônico muito pouco conhecido dos joseenses.
Johann Gutlich, Oscar Niemeyer, Zanine Caldas, Rino Levi e Burle Marx todos trabalharam por nossa cidade, precisam ser lembrados e suas obras preservadas.
Poderiam, por exemplo, ser as grandes referências estéticas urbanas de nossa cidade, inspirando praças, jardins e equipamentos mais criativos com pesquisas de materiais sustentáveis e design inovador.
Temos um legado apagado e desconhecido da grande maioria dos joseenses aguardando uma atualização cultural, um resgate educativo, uma preservação de memória.
Leia mais: Economia criativa em larga escala
Quando faço essas relações históricas estou mais interessada em observar uma realidade presente que às vezes me parece oculta para nós mesmos.
Um pioneirismo que uniu ciência, educação e cultura recebe agora um novo chamado e passa necessariamente pela integração da arte e cultura na educação.
Os artistas e produtores culturais da nossa cidade tem larga experiência e estão preparados para elaborar coletivamente novas proposições para os velhos e novos desafios.
Temos os principais centros de referências tecnológicas do país semeados nos anos 50 e 60 do qual muito nos orgulhamos, um grande potencial a ser explorado culturalmente.
A educação, a arte e a cultura ainda aguardam um chamado para a inclusão, numa grande agenda colaborativa.
Uma travessia corajosa que pode ser um legado para o futuro.
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