
Impresso em papel importado Muken (150g), no formato original 23×30 cm e capa dura, a edição de 68 páginas foi organizada por Magno Silveira e conta com artigos inéditos de Marisa Lajolo, Vladimir Sacchetta e Cilza Carla Bignotto. estudiosos da obra de Monteiro Lobato.
Magno diz que “resgatar O Sacy é devolver-lhe a carapuça, deixá-lo livre para novas traquinagens”. Quem tem a obra em mãos percebe que o resgate da primeira edição foi mais que uma questão literária. Contempla-se também a paixão pelo objeto gráfico, uma viagem ao tempo da tipografia, já que se operou um grande esforço para o máximo de fidelidade à obra original, suas cores, e em especial os fabulosos desenhos de Voltolino. Estão ali até mesmo algumas “cicatrizes”, marcas e irregularidades do tempo dos tipos de chumbo.
A primeira edição, de 1921
A primeira edição d’O Sacy é de 1921, um ano após o sucesso de A menina do narizinho arrebitado (1920), que foi o primeiro livro infantil de Monteiro Lobato. O Sacy veio reforçar as ações do escritor na direção de uma nova literatura infantil brasileira, nesse caso com foco em um personagem muito presente no imaginário popular, o saci.
Como escreveu Marisa Lajolo na edição fac-similar, “diferentes linguagens artísticas, ainda nos arredores dos anos 20 do século passado, expressavam desejo de ruptura com padrões culturais europeus. E Lobato pegou aquele clima, desenvolvendo suas longas sagas de histórias infantis profundamente brasileiras”.
Cilza Bignotto trata em seu artigo dos sacis do folclore, da literatura, até chegar à versão muito especial de Monteiro Lobato. Vladimir Sacchetta, em “O Saci-Pererê, trajetória de um inquérito”, relembra a verdadeira pesquisa social e antropológica feita por Lobato em 1917, consultando leitores do jornal O Estado de S. Paulo sobre as crendices regionais envolvendo os sacis, material que o ajudou a forjar o seu próprio duende brasileiríssimo.
As figuras de Voltolino

Magno Silveira, organizador da obra, apresenta ao leitor um pequeno perfil do ilustrador ítalo-paulistano, um dos maiores intérpretes do microcosmo infantil de Monteiro Lobato. Caricaturista requisitado por editoras, revistas e jornais, imortalizou os tipos da São Paulo das primeiras décadas do século 20.
A Editora Graphien

“Para maior fidelidade à impressão tipográfica, foram projetadas ‘matrizes’ em computação gráfica minuciosamente elaboradas a partir da análise e compreensão da capa original digitalizada em altíssima resolução”, explica o organizador.
Bibliófilo e colecionador da obra do escritor taubateano, Magno tem se dedicado ao estudo e resgate do universo pictórico dos livros de Lobato, com destaque para o trabalho dos ilustradores que deram vida aos personagens lobatianos entre os anos de 1920 e 1948.
O conhecimento minucioso de Magno sobre cada traço dos artistas escolhidos a dedo por Lobato, o mergulho nos contextos culturais das obras e a expertise no campo da produção gráfica estão refletidos nessa impecável edição fac-similar de O Sacy, um marco editorial no resgate de primeiras-edições brasileiras.
Sobre os textos dos colaboradores
CILZA CARLA BIGNOTTO
Em “O Sacy, um herói brasileiro”, Cilza Carla Bignotto traça a trajetória literária do saci, com suas variadas encarnações. Presente nos contos de Carmen Dolores, Viriato Correia e João do Rio a partir de 1908, o personagem tem sua consagração com Monteiro Lobato, em 1921. É quando o molequinho endiabrado das lendas e da tradição popular, ou mesmo já tocado pelo classicismo grego, ganha nova musculatura, com bravura e inteligência. E é capaz de usar o seu “enxofre” para proteger Pedrinho contra o Lobisomem.
VLADIMIR SACHETTA
Vladimir Sachetta conta em “O Saci-pererê, trajetória de um inquérito” como Lobato fez sua pesquisa sócio-antropológica sobre o saci. As primeiras narrativas sobre lendas do Vale do Paraíba o escritor as ouviu ainda na infância da boca de escravos nas terras cafeeiras do avô, em Taubaté. O grande mergulho no tema foi por meio de concurso no Estadinho, amplificado em série de textos (“Mitologia brasílica”), publicada em O Estado de S. Paulo a partir de janeiro de 1917. Livro sobre a façanha, Sacy-Perêrê: resultado de um inquérito, foi publicado em 1918.
MARISA LAJOLO
O saci nas mãos de Lobato foi uma peça muito importante na luta contra a importação de imaginário estrangeiro na literatura infantil brasileira, muito frequente nas primeiras décadas do século 20. Marisa Lajolo conta parte dessa história em “A Fantasia nacionalizada”, apontando esse novo passo do autor de A menina do narizinho arrebitado (1920), com a introdução de figuras do folclore brasileiro em suas obras, como o Saci, a Cuca e a Iara. Lobato já não tinha paciência para anõezinhos barbudos como os do Jardim da Luz.
MAGNO SILVEIRA
A história do livro O Sacy é também a história do saci desenhado pelo ilustrador Voltolino. Editor atento, Lobato inovou ao colocar o crédito devido já na capa: “com desenhos de Voltolino”. Em “Um boêmio entre sacis”, Magno Silveira faz um perfil desse caricaturista ítalo-paulista que não só ilustrou vários livros de Lobato, como era requisitado colaborador de revistas como O Pirralho, dirigida pelo modernista Oswald de Andrade, e do jornal da colônia italiana Il Pasquino Coloniale, no qual perpetuou a figura do personagem Juó Bananére.
SERVIÇO
O Sacy, de Monteiro Lobato
(fac-similar da primeira edição, de 1921).
Edição e organização: Magno Silveira
Editora Graphien
Impresso em papel importado Muken (150g), no formato original 23×30 cm e capa dura, tem 68 páginas.
LANÇAMENTO
21 de junho (terça-feira), das 18 às 21h
Livraria Martins Fontes
Avenida Paulista, 509
Bela Vista, São Paulo
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