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    Da janela do Helbor

    De Etser Santa Clara: uma “fábrica de gravuras” floresce na Vargem Grande

    24 de agosto de 2021Updated:25 de agosto de 2021Nenhum comentário8 Minutos de Leitura
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    Fotos: Mário Lúcio Sapucahy

    Um atelier cravado na Vargem Grande, em São José dos Campos, mais do que celebrar a gravura, celebra a própria paisagem. Ao “De Etser” original (da palavra aquafortista, em holandês) somou-se um angelical “Santa Clara”, para indicar que as terras nas quais o novo prédio se ergue fez parte da antiga Fazenda Santa Clara. Trata-se da mesma cena rural bucólica da coirmã Fazenda Santa Tereza, onde o poeta Cassiano Ricardo (1895-1974) viveu a primeira infância, uma fazendola de café. Era na “Vargem Grande, além do Paraíba e do Buquira”, o próprio poeta escreveu, dando mais coordenadas.

    Assim, o clima poético do atelier de gravuras está dado. Ainda mais sabendo que por ali, nos domínios do próprio De Etser, fulgura a capela de Santa Clara, toda caiada de branco com molduras azuis e um sino tinindo de novo. Foi completamente reconstruída a partir de ruínas mínimas de uma fundação original, obra que obrigatoriamente teve de levar em conta os modelos arquitetônicos de época e da região. Com capelinhas como essa há muita chance de orações e de poesia.

    Fotos: Mário Lúcio Sapucahy

    Desde agosto do ano passado, há um ano portanto, o De Etser Santa Clara tem como endereço a Estrada Pedro Moacir de Almeida, km 9,5, no Alto da Ponte, integrando o embrião do que poderá vir a ser um núcleo de arte e convivência na região. Além do próprio atelier de gravura (xilo, metal, lito; o silkscreen está a caminho e a tipografia dá os primeiros passos), há uma oficina de encadernação a todo vapor, no próprio prédio, sob a coordenação de Cláudia Gütlich e Carmen Sapede. Ao lado do De Etser, já funciona um atelier de pintura, com Rafael Marotti à frente, artista que integrou o Núcleo Desenho Vivo, em Caraguatatuba, liderado por Antônio Carelli e Sandra Mendes. Perto
    dali, do forno do Terracesa, atelier de cerâmica de Luciana Renna, saem principalmente luminárias.

    Os ciclistas que suam a camisa por essa pequena estrada, conhecida como estrada do Luso, em direção a Caçapava, foram os primeiros a perceberem a nova movimentação, atraídos também pelo Café De Etser, que pode servir de reconfortante parada. Domingo retrasado, o chef Antonio Mavilla serviu risotos por lá.

    O velho De Etser

    Fundado em 1998 pelos artistas George Gütlich e Fabio Sapede, o De Etser funcionou por mais de 20 anos no alto de um sobrado em Santana e viveu momentos importantes como endereço de debates, formação artística e ponto de exibição alternativo de arte na cidade. Que outro atelier, fora o De Etser, poderia abrir espaço para conversas sobre Dürer, a sua “Melancolia”, ou sobre gravuras de Piranesi confiscadas de lordes ingleses depois de um Grand Tour em Roma? Onde encontrar fabulosas microxilos de Grilo, com lobos a farejar parreirais, ou xilogravuras de Arlindo Daibert, inspiradas no Grande Sertão Veredas de João Guimarães Rosa, expondo a ossatura do demo? Onde vislumbrar, no espaço de uma biblioteca especializada, uma coleção de obras das mais diversas fases de Johan Gütlich (1920-2000), pintor holandês que criou e dirigiu a Faculdades de Belas Artes em São José, de 1962 a 1970? Que outro atelier foi capaz de ganhar de presente o tronco de uma árvore (derrubada pela chuva), para dessa matriz criar uma gravura? Fernando Costella o trouxe do pátio do Museu Casa da Xilogravura, em Campos de Jordão. Mais tarde, uma gravura de George e Fabio viajou de volta para crescer no museu. Conjunto de epifanias inesquecíveis.

    Fábrica de gravuras

    Há alguns anos, George e Fabio entenderam, entretanto, que era a hora de estabelecer um foco maior para o atelier e surgiu a ideia de construir a verdadeira “fábrica de gravuras”­ – o atual espaço tem esse caráter, inclusive arquitetonicamente -, com potencial ampliado, em cerca de 300 m² de área construída. Foi uma mudança e tanto, processo coroado pelo suor e pelo transporte de quatro prensas pesadíssimas, uma com cerca de 500 quilos. O desafio está prestes a ser maior em 29 de agosto, com a chegada de uma prensa de litografia, com cerca de 600 quilos, que pertenceu a ninguém menos do que o grande desenhista e gravador brasileiro Marcelo Grassmann (1925-2013).

    O trabalho do gravador é sempre intenso. Em qualquer das modalidades, verdadeiras armas são mobilizadas, de formões ao buril, à ponta seca. Na bancada de algumas “operações”, instrumentos como berceau, brunidor, raspador; há “ferimentos”, sulcos, relevos provocados nessa luta com madeira, chapa, pedra e um aparente “enigma” que se mostrará (será mesmo?) somente com a impressão, no encontro da tinta com o papel.

    Escuta-se a vibração da madeira. No seu poema “elogio da xilo”, o poeta Haroldo de Campos descreve: “o aquilo/o doce/morder/do ferro/na eira/na beira/no belo/da madeira”. Num vídeo sobre o poema, Walter Silveira gravou os movimentos, o brilho, os sons rígidos do formão a escavar. Assisti-lo é uma boa forma de entrar nesse universo.

    Já em outros contornos de um mesmo atelier, rege o processo da gravura uma alquimia de ácidos, cadinhos “mágicos”, fogo e uma chapa de cobre. Ninguém descarta, mais adiante, a preparação e o manejo das tintas (e sempre impreca contra quem deixou a espátula sem limpar). Artista e obra pensam até que podem se recompor na batalha da impressão, diante dessas máquinas, singelas e poderosas ao mesmo tempo, ao olhar a imagem sonhada e buscada, algumas vezes roubada de varais em papéis ainda úmidos e aflitos. Engano. Só de  uma coisa o artista parece saber muito bem: que pode voltar quase sempre ao início de tudo, novamente o buril na chapa já ferida, ainda com vida

    Foto: Mário Lúcio Sapucahy

    Movimento da paisagem

    Além da coesão pela prática visceral da gravura, percebe-se um pacto quase virgiliano entre os 14 artistas integrantes do atual atelier. E quando se escreve virgiliano, a referência é ao poeta romano Virgílio (70-19 a.C.), mais conhecido pela Eneida, mas que já tratava na sua obra Geórgicas sobre o ciclo das estações, sobre a  ligação do homem com a terra, com a natureza, sobre a necessidade de a “cultura aprender com a agricultura lições de coisas modestas, porém determinantes” (Onfray). O atelier parece ter esse caráter em constante cultivo: ao passo da preocupação socioambiental, com estimuladas práticas de sustentabilidade, se move o contemplar de uma natureza exuberante, com uma paleta de verdes modificada pelo sol e pelas sombras, com o desencadear de nuvens à espera de ventos ou da chuva, paisagens vislumbradas a partir de um privilegiado avarandado.

    E os céus do lugar, sempre “inefáveis”, como gosta de dizer George, nem por isso deixam de ser comparados a céus de pintores. Hoje um Ruyesdel passou por aqui. O gravador pontua no instagram, ao publicar uma cena da Vargem Grande: “Walden!”, referência erudita ao Vida nos Bosques, de Thoreau. O artista Rubéns Matuck se pronuncia diante da vastidão arrebatadora que se tem a partir do atelier: um “festival de paisagens dos Países Baixos”. Outro dia era quase um Altdorfer e, claro, um céu danubiano.

    Programa de residência

    Em terra firme, uma das novidades do novo espaço é um programa de residência em gravura. O edifício tem instalações completas tanto para o desenvolvimento de trabalhos originais, como para uma estadia confortável. O programa está aberto também para artistas plásticos, músicos, escritores, “ou qualquer pessoa que deseje um mergulho introspectivo que, sem dúvida, irá resultar em obras criativas e únicas”, diz a mensagem do atelier. O programa de residência foi inaugurado pelo artista plástico e gravador Wander Rocha, com intensa produção de gravuras em metal, xilogravuras e litogravuras (lito de pedra, em grego). Já participaram também do programa a compositora e musicóloga Ligiana Costa e a maquiadora Giovanna Leddomado. Fora do programa, mas dentro do espírito de acolhimento do espaço, o De Etser foi palco para a gravação do “Rezo Sounds”, “o último show pandêmico” do músico, compositor e letrista Lubas.

    Gabinete de gravuras

    George e Fábio pensam em ampliar futuramente o atelier, com a construção de um espaço expositivo, e mesmo para uma possível exibição apropriada da coleção de obras formada pelo De Etser ao longo de mais de duas décadas. O chamado Gabinete de Gravuras preserva mais de 200 obras em papel de artistas como Aldegrever, Rembrandt, Goya, Rubens, Schongauer, Dürer, Hokusai, Holgath, Daumier e de brasileiros como Otávio Araújo, Goeldi e Grassmann. Não faltam planos também para reviver a série de jantares com arte, nos moldes dos realizados no antigo espaço, em meio às bancadas dos artistas.

    A paixão pela gravura que levou à criação do De Etser há tempo foi desdobrada. Hoje George divide seu tempo entre o atelier, em São José dos Campos, e as salas de aula (hoje virtuais), como professor adjunto de gravura da Escola de Belas Artes da UFMG, em Belo Horizonte. Durante a pandemia, uma coletânea de ex-libris foi preparada pelos alunos, assunto que sempre esteve em pauta também no atelier. Fábio é professor de gravura no Atelier de Artes Visuais Johan Gütlich da Fundação Cultural Cassiano Ricardo, em São José dos Campos. Não à toa, une os artistas de linguagens e fazeres diferentes a paisagem conhecida, mas que agora está cada vez mais presente e com mais força na rotina dos dois, inescapável, tanto como tema como modo de ser: Vargem Grande.

     

     

     

     

     

    * A opinião dos nossos colunistas não reflete necessariamente a visão do portal spriomais.

    José Guilherme Ferreira

    José Guilherme Ferreira

    Escritor, jornalista e editor, José Guilherme Rodrigues Ferreira é formado pela Escola de Comunicações e Artes da USP. Foi editor-chefe do Diário do Comércio e participou de equipes nas redações da TV Globo, Agência Estado, Agência Folha, Jornal da Tarde e Globo Rural. É autor de Vinhos no Mar Azul, agraciado em 2009 com o Gourmand World Cookbook Awards, e de O Almofariz de Deméter.
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